
(Rezar, Fundo de ecrã de olivierelissalt)
Despiste-te de mim, aflito
Ausente maldito
E como um velho vestido, estorvo, empecilho
Assim caí eu, farrapo, a teus pés...
Vai-te! Não te aguento!
Vai, ó espavento, com o primeiro vento
E que o diabo te carregue
Odeio a nuvem demente
Que sempre vai a contrário senso
Da minha ânsia, que te roga presente
Em cada gota de chuva que rega, que cega os meus olhos
Odeio!
Vai! E se voltares
Olha-me, olha-me bem:
Uma incubadora de larvas é o que fizeste de mim
Que me devoram em vida, nem sequer fria, ainda quente
Enfartando, alegremente
A pança ao bicho solitário...
Larvas, sim...
Nojentas, depravadas
Falsas as Musas, negras as Fadas
A ferrar o dente no que sou, no que sinto
Até que meu pranto; Num mórbido canto
Expulsa o feto poema das entranhas das palavras...
E a caminho,
Põem seus ovos, constroem seus ninhos
Nos altos ramos do céu da minha boca
Hóstias de fel que sugo à força
É a clarividência das pedras e dos espinhos
Que me deixaste no lugar da tua presença
A meter seus dedos na minha garganta
Fundo, tão fundo...
Até que num doloroso espasmo
Meu ventre, meu corpo, meu todo em marasmo
Vomita, se desfaz, se esvazia
Em rios de purpúrea poesia
E ainda devo vergar e dizer-te:
Ámen?
(Carmen Cupido)