sexta-feira, 5 de abril de 2013

A tua sombra, gigante abismal

























Em silêncio,
Suster o peso da tua ausência
Ante ou clarividência
De um prenúncio lacri(Mal)
Que se me ateia na veia
A fazer de mim um ramal fantasmal
Onde só a tua sombra
Gigante, abismal
Ambula, vagueia, deambula
E nesse entretanto,
Num murmúrio, nem sequer pranto
Tudo em mim se morre, se anula
O ar, o amor, a luz e a vida
E eu aqui, (deixa-me rir)…
Já meia morta, a querer à força
Estancar a ferida
Da tua ausência
Em silêncio.

(Carmen Cupido)

sábado, 17 de março de 2012

Funambulismos de salto alto





















Atravesso o instante
Em que o percalço
Me faz perder o salto
E me deixa descalço
Face ao vazio

Olho a carne que se faz aço
Sobre o fio quando eu passo
E a dor não há, não é, na ponta do pé

Sei, é o Eu lá do fundo que mo diz,
Que o grito do olho não faz sentido
Qual fruto perdido, Precocemente caído
Da árvore da alma

A vida é avançar
Equilibrar o desequilíbrio
Quão grande o desafio
Funambulismos de salto alto
Sobre o fio tenso e estreito do ser

No espaço
Já exíguo do passo
Não cabe o lamento
Só a vontade, o alento
De continuar...

(Carmen Cupido)

domingo, 11 de março de 2012

Lacrado



























Lacrei
O orgão lacaio
Em pleno ensaio
Do sentimento
Mas o caçula
Abulado criado
Mesmo lacrado
À fula-fula
Por dentro, pula!
Por fora, a bula!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Alva









































(Salvador Dali, flores surrealistas)


Vou acender o sol
E acordar a alva na folha morta.

Rasgar valas com pluma de luz
No chão ressequido aos pés da Musa.

Arrancar da mente, extirpar do ventre
Um punhado de palavras semente
Que escondi nos cantos do que sou.

Vou com cuidado,
Pois cada verso que planto tem seu reverso
Como rosa tem espinho e arranha a alma.

Cai chuva de segredos na planície do papel
Do alto do céu do mistério dos Deuses.

Logo cores pintam flores
Na pele febril do poema

Nasce do escuro, o horizonte
Como quem acende uma estrela.

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tremente Papoila









































(Papoilas Red de NãoSouEuéaOutra Fotografia)

Era eu ainda de noite feita
Nas horas em que o corpo se deita
Mas a alma, sem fé, não dorme, fica de pé
E a sombra espreita; E a sombra espreita

Não sei se no sono, se na folia
Sabes Amor, sonhei-te em mim
E que o sol já bulia...

Buliu tanto e rebuliu que tal rebuliço
Ressuscitou a tremente papoila
Que bailou, espampanante, doida,
Em meu ventre de moçoila

Ai, Amor, toda eu tremia:
Não sei se de calor, se de frio
Se de amor, se de cio...

Vi-me correr, das tripas à aorta; Em devota oração absorta
Ir rogar à minha boca, antes muda e morta
Agora vívida e escarlate; Que enfim se dilate
Na hora em que a rúbida aurora no meu peito embate

Apressei-me então e de, par em par, fui abrir as janelas do meu ser
Para acolher a madrugada mas não sei se foi sonho ou obra de fada
Olhei-me para dentro e eras tu Amor, em mim a florescer...

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nascer ao contrário




























Mãe,
Se eu pudesse
Ir mais além
Nascer ao contrário
Nos dias em que não me apetece
Assaltar o mundo, ser temerário
Dobrar-me inteiro, nascer para dentro
Num rola e rebola, dar um jeito
De devolver meu Ser ao centro
De ti, do seu primeiro leito
Amniótico berçário
Colo uterino e cavitário
Que me embala e me sustém
Eternamente Mãe!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Te Amo





















Tenho olhos de fera
Especados na tua boca
A cercar um “te amo”
Que escondes na toca
E na febril espera
De caçar a palavra
Já na veia a lava lavra
O olor; O antessabor
Do que ainda não  foi dito

E o sangue pula aflito; E o sangue pula aflito!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Corpus Poema Corpus



























(Corpus Foto de Paulo Madeira olhares.com)


Dar Corpus ao poema,
Com o meu corpo inteiro.
Espreitar as entranhas do que sou,
Sem venda nos olhos das palavras.

Parir filhos que nascem sem pedir licença.
Sem perguntar porquê, para quê.
São, existem e ponto.

Big Bang de sarrabiscos
Que se creem sonhos de luz,
A atravessar o túnel uterino da poetisa.
Vão apressados, arrancar mundos
Ao buraco negro da alma.

Pedaços de verdade, que em forma de mentira,
Deslizam sabe-se lá de onde para o bico estreito da caneta.
Murmúrios de amor, talvez desamor, a queimarem
Os dedos de quem toca a pele do corpo do poema.

Pousar o ouvido no peito da saudade
Quando esta maldiz a ausência,
Atirando-lhe mil blasfémias à cara.

Flor de Carme que desabrocha, porque sim.
Suas raízes esburacando por dentro
A carne que toma por terra.

(Carmen Cupido)

Vice-Versa




















No acto de virar a página, não sei:

Se é o dedo que vai à língua
Ou vice-versa...

Se é o dedo que vai à página
Ou vice-versa...

Se sou eu que viro a página
Ou vice-versa...

(Carmen Cupido)