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segunda-feira, 20 de março de 2023

À Janela...

À janela…


Há rosas amarelas

No peitoril, estrelas

A sugar o sol…

 

Quão artifício flavescente

Emoção crescente

A estalar na retina…

 

Até a mínima rosa

hasteia, estrondosa

Seu fulgor fulvo

 

Vão de braços ao alto

Em áureo sobressalto

A esticar o caule…

 

E não há espinho que valha

Ou nuvem grisalha

Que desalente o ardor

 

Há no ar um espanto

Tal é o encanto

Que me pulsa no peito…

 

Sinto tamanho aperto

Que a minha alma em desconcerto

Engole o suspiro para dentro!

 

(Carmen Cupido)



 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Fulgor



Está na hora
Que o floco de neve
Se faça flor
Desperte o fulgor
Elevando seu caule
Ao alto esplendor
Do sol de Primavera
Que vibrem com clamor
Os versos de amor
A vida e todos os verdes
Nas suas luminescências variadas
Que venham as papoilas soltar
Os prados do seu gélido pranto
E que o excelso canto
Dos pássaros regressados
Entoem nos céus
Onde, antes, só soavam
Os clarins desacordados
Dos dias sórdido-desalumiados
Do velho agre
Ogro averno
Inverno!

(Carmen Cupido)

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ao Zénite do Poema



Com o passar do tempo
Afoga-se-me a voz
Eu sei
Num mar de silêncio
E a palavra em cio
Perde o pio
Quando vê
O estridente sentimento
Arrastado pelo vento
Ir cair
Num deserto 
De ocos ecos
Onde as raízes ressequidas
Dos meus versos
Já não têm a força
De esticar o caule
E erguer a flor 
Ao zénite do poema

Porém,
Não temo o silêncio
Nem seu mudo reinado
Pois, por detrás
Dos meus lábios apertados
Se espreito
(Quando o escuro bate)
Bem no fundo
Do meu peito
Vejo estrelas a cintilar
E se eu me calar,
Ouvi-las-ei suspirar
Mil cantos rubros
Que eu ainda te hei de contar, meu amor!

(Carmen Cupido)


 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Foz de mel



Estica o caule, a flor
Para alcançar mais alto, parecer maior

Estico eu o dedo
Para acordar o sangue, abafar o medo

Na hora de tocar, ao de leve
A palavra breve

Que a tua boca solta
E que eu, ávida, espero na volta

Já com os meus lábios prontos, postos
Na tua foz de mel...

(Carmen Cupido)

domingo, 7 de março de 2010

O Sol lá fora


(No silêncio da escuridão, foto de Primo Tacca Neto)

Mea culpa
Se tranco o sol lá fora fechando a portada
Da janela da vida que passa; e minha alma encerrada
Louca late, pulsa, inflamada pupa.

Não sei porquê, mas sinto-me muda,
Que a minha boca se desnuda
Como árvore de outono em seu invernal sono
E que os sons são só folhas mortas
Húmus do silêncio a encerrar as portas
Da minha voz.

Não enxergo a luz,
Raio a raio, ela se esfuma
Neste buraco negro do que sou
Nada brilha, nada reluz
E eu aqui, coberta de um cendal de escura espuma,
Sem saber onde estou

Aquela estrela pálida que avisto
Do fundo deste castelo cavernal que habito...
Serei eu? Estarei no escuro
Sem saber que sou cadente astro
Meteoro de incandescente rastro
A atravessar o horizonte, cavaleiro ilustre, valente
Montado na sela de um caule órfão de flor
Mas com sonhos no ventre?

Quem me fez assim, feita de noite e de fel
E porquê se perdem em mim a canela e o mel?

Mil vezes desaparafuso, juro
Meu umbigo e o situo
Mais aquém, mais além
Para que a minha alma, engrandecida
Solte ao sol sua sílaba retida
Como se esta fosse rouxinol
A chilrear, o cantor
Cantando um hino de amor
À manhã macia e clara

Mas minha palavra, ora obscurecida, ora encandeada
Sente eternamente um toque gélido de serpente enrolada
A roçar-se provocantemente na pele do poema!

Porquê? Porquê?

(Carmen Cupido)