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domingo, 11 de abril de 2021

Numa só rosa



Se no meu peito ainda late a poesia
E no meu sangue corre o verso sem repouso
Levando sustento ao poema transfuso
Que outrora jazia em avernal amnesia

Se lá mora o sentimento todavia
E lhe sobra sementes à palavra
E a pluma insistente, porém tremente, ainda lavra
A garganta árida e bravia

Se ainda me sobra alento
Para desfolhar as pétalas do tempo
Plantar grãos de calma na alma
E não desesperar na espera

Se, ao cair por terra, a penosa dor
Criou raízes e se fez flor
Então, crê em mim, por favor
É amor...

E se o amor é uma dádiva preciosa
E toda a primavera cabe numa só rosa
Assim tu caberás em mim,
Por fim!


(Carmen Cupido)


 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ao Zénite do Poema



Com o passar do tempo
Afoga-se-me a voz
Eu sei
Num mar de silêncio
E a palavra em cio
Perde o pio
Quando vê
O estridente sentimento
Arrastado pelo vento
Ir cair
Num deserto 
De ocos ecos
Onde as raízes ressequidas
Dos meus versos
Já não têm a força
De esticar o caule
E erguer a flor 
Ao zénite do poema

Porém,
Não temo o silêncio
Nem seu mudo reinado
Pois, por detrás
Dos meus lábios apertados
Se espreito
(Quando o escuro bate)
Bem no fundo
Do meu peito
Vejo estrelas a cintilar
E se eu me calar,
Ouvi-las-ei suspirar
Mil cantos rubros
Que eu ainda te hei de contar, meu amor!

(Carmen Cupido)


 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Para ver se existo


Poema é a mão

Que eu te estendo

Nas horas escuras

Em que preciso que me toques

Para ver se existo!


(Carmen Cupido)
(poema publicado em agosto 2008
in A Folha - A Poesia da Simplicidade)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Corpus Poema Corpus



Dar Corpus ao poema,
Com o meu corpo inteiro.
Espreitar as entranhas do que sou,
Sem venda nos olhos das palavras.

Parir filhos que nascem sem pedir licença.
Sem perguntar porquê, para quê.
São, existem e ponto.

Big Bang de sarrabiscos
Que se creem sonhos de luz,
A atravessar o túnel uterino da poetisa.
Vão apressados, arrancar mundos
Ao buraco negro da alma.

Pedaços de verdade, que em forma de mentira,
Deslizam sabe-se lá de onde para o bico estreito da Pena.
Murmúrios de amor, talvez desamor, a queimarem
Os dedos de quem toca a pele do corpo do poema.

Pousar o ouvido no peito da saudade
Quando esta maldiz a ausência,
Atirando-lhe mil blasfémias à cara.

Flor de Carme que desabrocha, porque sim.
Suas raízes esburacando por dentro
A carne que toma por terra.

(Carmen Cupido)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poesia em sangue




Decaída
Salto quebrado
Unha roída
A palavra dá brado
Brando ao poema

Vagaroso
O verso vai
Verde na veia
E na garganta
Só o silêncio se ateia

Morre a poesia
Sem encontrar cura
E nas artérias da Poetisa
Já nem a dor madura

Só a morte grita no sangue!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Azulejo


(Letting go Foto de David Ho )


O poema é martelo
A quebrar o que sou
Em mil estilhaços
Para fazer de mim
Mero azulejo
De um cínico desejo

É-me urgente
Aprender a cair
Sobre o solo
Como se o poema
Fosse colo
Braços fortes como o aço
Berço, terço
Cama, regaço
Onde o Eu
Em pedaços partidos
Cai
Perde os sentidos!


(Carmen Cupido)