terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Conto de Natal





















Noite e dia, Maria caminha
Ao ritmo da dor que no seu ventre se aninha
Torce, passo a passo, o terço
À procura de leito, à procura de berço
E tanto fervor tem sua prece
Que o céu, chorando, lhe tece
Um fio d’ouro que a conduz
À manjedoura onde dá à luz
O fruto divino
Maria, tão cheia de graça
Com amor, com todo o calor,
No seu colo enlaça
O messias, o menino
Aquele que nasceu sem nada, pequenino
Mas logo no primeiro instante
Embora o mundo o adore e lhe cante
Viu nos olhos de Jesus, a cruz
A mesmíssima onde morreu; de alma ao léu
Por querer amar e não matar
E mesmo assim Avé, Avé...
Maria riu, de seio ao ar
E pôs-se a cantar canções de ninar!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sangue nos dedos da palavra casta





















Silêncios mugem
Nas minhas tripas
Como cem cães a um osso
Ladram...

Animais enraivecidos
Ou quem sabe, talvez feridos
De dentes afiados, fincados
Lambem sangue nos dedos
Da palavra casta

Vermes dementes
Rasgam as barrigas
Das chagas antigas
Que abertas de par em par
Vão verter, vão jorrar
Sua mortualha no leito do poema!

(Carmen Cupido)

sábado, 19 de novembro de 2011

O Céu ri




















Por vezes,
Em noites prenhas de sombra e medo
Eu choro! Não é segredo.

E para consolar
As lágrimas que caem no abismo do sono
Prometo-lhes o céu...

E não é que,
A meio caminho do sonho
Uma armada de anjos vem colher o líquido precioso
Que, ao cair dos meus olhos, têm forma de diamante!

Vejo então,
Mil mãos de luz a lançar
Do chão para o ar
Estranhas pedras a brilhar.

Olha!
Parece chuva a chover de pernas para o ar!

Pouco a pouco
A sombra deslavada, vai...
O medo demolhado, cai...

E na noite, antes dolente, agora um sopro quente
Semeia estrelas e o céu
Ri!

(Carmen Cupido)

sábado, 5 de novembro de 2011

E tu no banco a esperar





















(Foto "The Fog" by Anca Cernoshi)


Cai o véu
Cai branco
Cai do céu
Para te cobrir


Teu olhar é réu
Sentado no banco
De rugas ao léu
A vê-lo cair...



Neste inverno
Um sol já terno
A querer fanar


Será
Noite a chegar
Em alto porte
Ou anda a morte
Ao Deus dará
De manto branco
E tu no banco
A esperar!

(Carmen Cupido)

domingo, 30 de outubro de 2011

A farpa















(Foto proveniente do Teatro "A Farpa" da Companhia Miníma)

Há sempre uma farpa
Que se elide no ventre do Poeta

Uma espécie de canto lutuoso
Declamando notas álgicas diversas

Um flúmen menstrual de Musa
Esculpindo margens na palavra purpúrea

Caules subterrâneos na escuridão do poema
Bolbos de madrugadas várias a nascer para dentro

Verbos, versos, com um monstro bicípite na ponta
Empurrando as letras em tormentos contrários

Rodopios ardilosos que a conta – gotas
Vão desfolhando as bubas do poema

Sarrabiscos aos Ais com asas de pedra
Que cravados na terra, admiram os céus

De longe, de longe...

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

De bruços sobre o dia

















Ninavam no berço do horror
Todos os silêncios que nos davas a comer
Óvulos violência que fecundavas com o terror
Que, na noite amarrava o sol, para não nascer

Nos cantos da casa, tudo rezava
A Mãe, os filhos, o sal e até o vento
Mas Deus não chegava e nada acelerava
O tempo que se arrastava, de tão lento...

Os gritos eram ecos quebrados
Contra os quatro muros
Mal saídos da boca, eram logo abafados
Nos teus nevoeiros escuros

O amor que não davas
Era pão com bolor
Que engolíamos por temor
Aos regos que cavavas
De cinto em punho

Mas na veia algo havia
Que nos falava, nos dizia
Que amanhã, de bruços sobre o dia
O sol teimoso, nasceria

E nasceu...
Cuspiste tanta ira e de nada te valeu!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Meia Benção, Meia Praga

















És …

Meia Benção, meia Praga
Meia Carícia, meia Chaga
Coágulos dos meus gritos
Que berram agudos, aflitos...
Ai, que ensurdeço por dentro!

És...

Meio Ferro, meio Veludo
Meio Nada, meio Tudo
A palavra que me é dita
No silêncio que me habita...
Ai, o terremoto nas minhas entranhas!

És...

Meia Sede, meia Fonte
Meio Abismo, meia Ponte
Um pé na distância
E o outro pisoteando a ânsia...
Ai, a hera que me trepa o coração!

És...

Meio Tarde, meio Cedo
Meio Belo, meio Ledo
A noite que se apressa
Na madrugada cheia de pressa...
Ai, e ainda assim, o sol em mim, não desponta!

És...

Meia Prisão, meio Mar vastidão
Meia Dor, meia vermelha Flor
Às vezes ardente, cálida
Às vezes doente, pálida...
Ai, a raíz bebâda de riso e de lágrimas!

És...

Meia Vida, meia Morte
Meio Azar, meia Sorte
E persegue-me o desespero
Porque por não te querer
Ai, Amor! Tanto te quero!

(Carmen Cupido)

domingo, 9 de outubro de 2011

À proa

















(Imagem "Outuno II" de DDIArte olhares.com)

E se o arco
Dos teus braços
Fosse um barco?
A derradeira embarcação
E a virgem, figura à proa, fosse meu coração
Que ao sol levanta, aproa
Seu corpúsculo tal uma canção
De embrandecer as ondas que rasga
Como se fossem de papel

Imagina:
Vai alto, furioso, violento
Filar o vento
Num último intento
De te alcançar; alcançar o astro
Antes que a morte venha
E apague o rastro
Do que eu sou, por dentro
Do que eu sinto, no centro

Será sonho?
Querer, em ti, navegar
Ter os teus olhos por mar
Amar; Amar-te, Amar
Antes do outono, do cair da folha
Antes que a vida finde
E no inverno, meu corpo encolha
E a terra com gula
Me engula!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Calar é dom





















(Desconheço o autor desta bela imagem mas apelo a quem conheça,
porque cada autor merece ver reconhecido o mérito do seu trabalho!)

Às vezes,
Calar é dom
Arrancar pontualmente o som
Que me ensurdece por dentro
Quando me adentro
À procura de mim e não me encontro
Lá no fundo, só um monstro
Me grita e me devora
Reconhecer enfim a hora
De cortar o alimento
Amordaçar o lamento
Matar o glutão à fome
A besta que de mim tudo come
Até as tripas...

Calar,
Dizer não ao falar por falar
Ao palreado fútil cortar o ar
Com os olhos, rir
Sem mastigar, engolir
O mundo pelos sentidos
Verter meus cantos feridos
Em cada pingo de poesia
Seguir com o dedo a palavra escorregadia
Metade mel, metade fel
Que se me vai, que se me cai
Dos poros da alma para o papel!

(Carmen)

Não sei se fui eu que virei as costas à poesia; ou se foi a poesia que me virou as costas. O que eu sei é que, às vezes, a alma precisa de algo mas não sabe bem do quê! Há, na vida, momentos assim; em que a palavra perde a sua essência mal sai da boca e só nos resta calar e escutar o que o silêncio tem para nos dizer! Neste viver sem som, descobri que saber calar não é castigo mas sim um dom! Aprendi que, por vezes, a sabedoria não está nas palavras mas nos espaços mudos que as separam!

sábado, 30 de abril de 2011

Vejo o cravo perder o jeito

























Ainda não o sei
Mas sem ti, vou morta
Para onde, nem sei
Quando tu te foste
E eu fiquei ; E eu fiquei… 


Olho, por dentro, o peito
E pouco a pouco, pouco a pouco
Vejo o cravo perder o jeito
De amar a chuva e o sol já rouco
Calar seus raios

Caio na escuridão
Que me ensina a engolir
Os caroços de negridão
Como pedaços de pão
Que me dão vida
À força!

Mas este pão não me sacia
Ando, de entranhas, vazia
E a luz já ténue e esguia
A minha alma desfia
Fio a fio, fio a fio

E até a minha boca
Se traja de silêncio
De tanto cuspir
Os gritos que gritei
Quando tu te foste

E eu fiquei ; E eu fiquei.

(Carmen Cupido)

domingo, 17 de abril de 2011

Perguntas





















Quem se levanta
E não mais se arrasta
E grita a palavra
Basta?

Quem clava
O derradeiro prego
Pancada
No ego
Pedrada
Nos podres
Da mente
Dos Ogres
Com língua
De serpente
Que ferram, fundo
O dente
Na garganta do Mundo?

Ai Deus, quem trava
O canino que se afunda
E o sangue que jorra, abunda?

Quem se levanta
E não mais se arrasta
E grita a palavra
Basta?

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poeta Louco

























(Desconheço o autor da imagem e apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Olhem o Poeta Louco

Ai credo, esqueceu seu credo

Para ir atrás da fama que é chama de pouca dura

Virou banazola, o rapazola

Bicho arrastado, de poesia rouco...

Perdeu-se nos cem passos

Girou febril, o imbecil

Morreu-se aos pedaços

Ai o coitado, caiu-lhe em cima um enfarte

Desmoronou-se-lhe o bê-á-bá da sua arte

Por doidejar demais sua pena

Que vazia e velha

Num canto pena e depena...

As palavras murchas já nem com cravelha

Retesam o flavo de outrora

Ora,

Seu poema, já nada grandíloquo

Virou lenga – lenga, arenga

Endecha que nem com hóstia no papo

Consegue elevar as Musas à glória

Ai que história, ai que história...

Ó Calíope, ó Melpômene, ó Erato

Inspirem, sussurrem, transpirem, que raio!

Descolem o bico ao gaio

Que assobie, declame e cante o desgraçado

Miséria já lhe basta a de ser poeta, pobre e mal fadado!


(Carmen Cupido)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Abraça-me

















(desconheço o autor da imagem mas apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Abraça-me,
Como nunca, como ninguém
Faz dos teus braços
Um baloiço de laços
Que me embala
Quando o medo vem

Lá fora, o mundo
Parece ter perdido o fundo
E sem chão, meus pés
Caminham a lés
Perdidos da estrada, perdidos da fada
Que me guiava...

Abre-me teus braços
Recolhe os pedaços
Das asas que parti
A voar à toa por céus baços
Beija-me a ferida
Quero voltar a casa, ando perdida

Abraça-me,
Como se teus braços fossem
Um boca à boca que me salvassem
Do ar impróprio, incasto
Do mundo que é vasto
Ai Deus que morro, não respiro
Na garganta, agonia-se-me o último suspiro

Abraça-me,
Apaga, ao dia, a luz
Arranca-me a cruz
Que me pesa no peito
E faz dos teus braços o leito
Onde à noite, guerreira cansada, me deito!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Às vezes


















(desconheço o autor da imagem mas apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Às vezes,

Sinto-me lixo varrido

Para debaixo do tapete

Do amor e da vida...

E dessa inconfortável posição

Mão no peito, dedo na ferida

O meu coração grita alto a aflição

De sentir pulular nas veias

As abrasivas areias

Que me riscam e que me rasgam...

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

És grito


És, em mim, o grito
amordaçado, circunscrito
No cárcere das minhas tripas
E tão afiado é o sílex que na ponta traz
Que rasgas, reviras, estripas
O amor mal nascido que já lá jaz...
Desgraçado, ao morrer
Nem um ai proferiu
Nada, mesmo nada se ouviu
Nem som, nem sangue a escorrer
Dos ecos dolentes; E só os dentes
Trincavam os lábios do ventre
Para reter as últimas gotículas
Não sei se românticas, talvez ridículas
De um sonho abortado!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

D. Quixote de Pacotilha





















(Don Quixote Pen and ink on watercolor paper by Cloudery)

Intima com o abismo
Um pé a escorregar
Dedos a deslizar
Nas costas do obscurantismo
Carícia derradeira que vai medir
A garganta profunda que está a engolir
O meu sonho agonizante
E até a palavra, afiada espada
Do cavaleiro andante
Do poema, perde a bravura
Face à margem escura
Da tua indiferença...
Ai Amor, contra braçadas de desamor
Sou um Dom Quixote de pacotilha
E contra moinhos, não há luta nem crença
Que me valha!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Afinal


(Foto de Graça Loureiro olhares.com)

Asfixia-se o meu suspiro
No ar teu que não respiro
E para travar a morte
Atiro à sorte
Tiro sobre tiro sobre tiro
Porém, nunca acerto
Nem de longe, nem de perto
Nem de longe, nem de perto

És ao meu dedo
Caracol sedoso sempre a escorregar
Um anel que sem garra, não se agarra
Talvez com medo, ao dedo
De quem tanto, no entanto
Te quer amar, amar tanto

Falta ao meu dia
O teu riso sonoro, a tua alegria
Sal de vida que se me vai errante
Em que cada grão de silêncio lacrimante
Que te chora ausente
Omnipresente, omnipresente

Na memória dos meus olhos
Já se arrancam os folhos
Da tua lembrança,
Desespero, desesperança
De quem perde o alento
A lutar nos remoínhos do vento

Os teus braços, que não estão
Me dão um abraço, que não dão
E por um instante, a sensação
Ilude o coração para o mais além da razão
Onde os meus sentidos vão
Beliscar a carne em vão
Para ver se estás, se existes ou não

Mas tu és sonho afinal
Medonho afinal
Irreal afinal,
És pesadelo gigante quando o dia vem
O membro fantasma que não se tem
Mas que dói, rói, mói...

(Carmen Cupido)