segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Abraça-me

















(desconheço o autor da imagem mas apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Abraça-me,
Como nunca, como ninguém
Faz dos teus braços
Um baloiço de laços
Que me embala
Quando o medo vem

Lá fora, o mundo
Parece ter perdido o fundo
E sem chão, meus pés
Caminham a lés
Perdidos da estrada, perdidos da fada
Que me guiava...

Abre-me teus braços
Recolhe os pedaços
Das asas que parti
A voar à toa por céus baços
Beija-me a ferida
Quero voltar a casa, ando perdida

Abraça-me,
Como se teus braços fossem
Um boca à boca que me salvassem
Do ar impróprio, incasto
Do mundo que é vasto
Ai Deus que morro, não respiro
Na garganta, agonia-se-me o último suspiro

Abraça-me,
Apaga, ao dia, a luz
Arranca-me a cruz
Que me pesa no peito
E faz dos teus braços o leito
Onde à noite, guerreira cansada, me deito!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Às vezes


















(desconheço o autor da imagem mas apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Às vezes,

Sinto-me lixo varrido

Para debaixo do tapete

Do amor e da vida...

E dessa inconfortável posição

Mão no peito, dedo na ferida

O meu coração grita alto a aflição

De sentir pulular nas veias

As abrasivas areias

Que me riscam e que me rasgam...

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

És grito


És, em mim, o grito
amordaçado, circunscrito
No cárcere das minhas tripas
E tão afiado é o sílex que na ponta traz
Que rasgas, reviras, estripas
O amor mal nascido que já lá jaz...
Desgraçado, ao morrer
Nem um ai proferiu
Nada, mesmo nada se ouviu
Nem som, nem sangue a escorrer
Dos ecos dolentes; E só os dentes
Trincavam os lábios do ventre
Para reter as últimas gotículas
Não sei se românticas, talvez ridículas
De um sonho abortado!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

D. Quixote de Pacotilha





















(Don Quixote Pen and ink on watercolor paper by Cloudery)

Intima com o abismo
Um pé a escorregar
Dedos a deslizar
Nas costas do obscurantismo
Carícia derradeira que vai medir
A garganta profunda que está a engolir
O meu sonho agonizante
E até a palavra, afiada espada
Do cavaleiro andante
Do poema, perde a bravura
Face à margem escura
Da tua indiferença...
Ai Amor, contra braçadas de desamor
Sou um Dom Quixote de pacotilha
E contra moinhos, não há luta nem crença
Que me valha!

(Carmen Cupido)