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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Um Abraço de Anjo


Rogo…

 

Por um abraço de luz, bênção

Laço doce de algodão

Que me sossegue o peito

 Como um colo de mãe aveludado onde me deito

Quando a escuridão

Me assalta o coração…

 

Rogo…

 

Por um abraço apertado

Repouso para guerreiro cansado

Num pedaço de tempo

Onde o mundo a contratempo

Multiplica o peso

Que me retém preso

 

Rogo…

 

Por um abraço possante, encantação

Que me arranque à assombração

Dos dias em que a minha alma

Não encontra nem a força nem a calma

De se extirpar à desesperança

Quando me falta a fé e o vazio me cansa

 

 Rogo…

 

Por um abraço de anjo

Um qualquer arcanjo

Que, por um momento que seja, me dê guarida

Me dê o descanso que me alenta à vida

Que me deixe a cabeça no seu ombro encostar

E guarde silêncio quando me ouvir chorar!

 

(Carmen Cupido)


 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Euritmia

 


Porque lá fora,

O ciclo da vida

É um intérmino mistério

Onde nada é perene

Nesta história de um mundo

Que gira obstinadamente

Eis-nos, vitoriosamente

Às portas de uma nova primavera

Por onde vagueia e se exaspera

O inóspito inverno que com sono

Se adormenta, enfim, sobre o húmus do outono

 

Na atónita invernia

Há uma neblina dissolvida

Onde as gotas rociadas

São, afinal, fadas disfarçadas

A espargir magia

A derramar vida

E, ó espanto; ó encanto!

Logo, logo

Campânulas apressadas

Se elevam do solo rasgado

Rumando ao alto, de caule esticado

E eu, de olho encharcado

Coração em arritmia

Respiração acurtada

Alio-me, extasiada

A esta deleitosa euritmia!

 

(Carmen Cupido)


quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Nostalgia



Debruçada sobre o dia

Caio na nostalgia

Na vontade de evasão

Que corre delirante

Ao encontro da recordação

Gritante


O sonho que desperto

De um além mais perto

Já antes o sonhei,

De tudo e todos os que deixei

Suspensos na saudade

Que me atiça sem piedade


Aqui, de pé, plantada

Sou como flor silvestre

Pelo vento, levada

Para terra alpestre

Sem me saber tremida

Sem me saber perdida


Tudo me leva ao lugar

Que me deu ao mundo

Um murmúrio no ar

Um batimento profundo

Um desejo que se esvai

No rio que vai

Para onde não sei

Sem deixar rastro do que chorei


É triste para quem se sente

Distante, diminuto, ausente

De tudo o que faz bater o coração

Porque não há suplica ou oração

Que traga de volta a vida que passa


E nem as mais belas montanhosas paisagens

E nem as cores que incendeiam as folhagens

Não há beleza; não há riqueza

Não há nada; nem ninguém

Não há rastilho que ateie o brilho

De uma alma deslustrada

Ao seu berço, por fado, arrancada.


(Carmen Cupido)


 

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Saudade




Este pranto é tão somente meu

Ninguém d'outro o verteu

Nem outra alma teve a piedade

De lhe matar a saudade

Nem o desespero que sofreu

Nem nunca sentiu a ânsia

De viver e amar à distância

Tudo e todos os que ama

Nem o sentimento profundo

De estar só no mundo

Quando a tristeza o chama

E o coração grita um lamento

Que se perde no uivo do vento

Nem nunca exclamou a dor

À melancolia prenunciada

Pelo avassalador temor

De a ver, por mil, multiplicada!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Coração de Leão



Há sempre
Uma força tranquila
No coração do Leão
Que cada dia
Brada aos céus
Rugidos feros
Ora de alento
Ora de luta
Ora de advertência
a cavar, ao perigo, a distância
Suas poderosas garras
Sempre prontas a cravar
A carne do mundo
E lamber o sangue ardente
Que brota da ferida
De viver com o peito aberto
Frente à avidez dos abutres
Que se aninham 
Nos ramais mais altos
Dos sentimentos vis
Que tronam nos tórax alheios

Às vezes,
Porém,
Perde o seu vigor
Ou então não o encontra
No mais além de tanta dor
Desesperança tanta
E, nessa exata hora
Parece-lhe sentir-se
Diminuta mariposa
A acoitar-se, rendida
Entre as pétalas
Da mais sedosa
Flor da selva
Que alcança.

(Carmen Cupido)

domingo, 30 de agosto de 2020

A Bênção


Do alto
Da minha descrença
Ergo aos céus
As minhas pálpebras doridas
E assim
Atravesso eu a vida
Sem nunca vislumbrar
As oferendas
Recebidas

Parece-me padecer
De uma lei suprema
Que me deu sofrida
À luz do mundo
Com todas as maldições
Do universo
A recair sobre mim
E sem nunca aprender
A torcer o pescoço
À força implacável
Deste meu Fado

Serei eu
Um fruto esconjurado
Por uma cruenta praga
Que o diabo bafejou
Aos quatro cantos
Do que sou?

Serão
A adversidade
E o sofrimento
A superior natureza
Do ser e da vida
A única maneira
De crescer
Em valor
E em sabedoria?

Rogo
Para que a desfortuna
Que avisto
Efeito ou talvez não
 Da desilusão
Que me rói por dentro
Não encerre
 Meus olhos
De pobre mortal
Na cegueira
De não saber
Ver a bênção
Que recebi
No preciso segundo
Em que nasci…

A VIDA!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Ao toque da Primavera


É hoje, enfim
Que a alva irrompe
Com o seu canto de galo
Dos dias grisalhos
Que desfalecem na matriz infecunda
Do velho inverno que tombou
E a sua gelidez se estilhaçou
Em mil cores que se verteram
E a correr, divinas, foram
Acordar as papoilas,
O alecrim, as malvas
E todos os outros
Seres silvestres
Nos campos dormentes

Ao toque da Primavera
As pálpebras do mundo
Levantam-se de repente
Para o dia surgente
Que as espera
E o seu novo corpo ciliar
Ornado de esmeraldas
Faz sombra à pupila
Que de tanta beleza e luz se contrai
E a iris, enciumada e receosa
Afana-lhe a cor
À joia preciosa

O sol desponta
Agora possante
E de um só raio rasga as nuvens
Que o retinham
Num limbo borralhento
Ora, logo as safiras
Que trazia no bolso se soltaram
E foram salpicar o céu
Que espanou as cinzas
Ao seu vestido cor de infinito
E o solar espaço que ficou
Foi tomado de assalto
Por anjos, pássaros e borboletas
A inebriar-se em alto voo
Do mel de viver
E a vida a obrar; e a vida a zoar
Na própria colmeia

Vai, Inverno, vai
Vai-te embora
Que o tempo passa e nada se demora
Fecha os olhos só o instante
De dar descanso à tua velha carcaça
Silêncio, nem mais um rumor
Não roubes o tempo
De canto ao rouxinol
Nem o bocejo às flores
Que se espreguiçam 
Na lentidão de se fazer fruto
No alto das cerejeiras
E nem a mim o malmequer
Urge-me desfiar-lhe as pétalas
Para ver se o meu amado bem me quer
Ou bem me quer ou bem me quer

Vai, inverno, vai
Vai-te embora
Porque o tempo passa e nada se demora
Que não se te conceda nem mais um segundo
Pois, lá ao longe, lá ao fundo
Já o Verão se pousa
Nos seus fios dourados!

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Centauros de Papel


Na manga do meu ventre
Um trunfo de poesia

Um amar-te mais alto
Flutuando no mastro
Do sentir ao infinito

Um sopro de vento
Suave e atento
Que te traz no bico

A saudade traduzida
Na ponte suspendida
Que vê o presente
Levar o passado a sonhar o futuro

O Mundo
(porque é o que tu és)
Guardado no bolso sem fundo
Das galáxias da alma

Centauros de papel
Para invadir o espaço, a pele
Do verso em branco lauto de ti!

(Carmen Cupido)
(poema publicado a 20 de Novembro de 2008
no meu blog wordpress "A Folha - A Poesia da Simplicidade)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Fruto Maduro


O tempo poderá vir
Cavar os seus sulcos
Na minha fronte

Soprar aos quatro cantos
Do que sou
Todo o furor do mundo

As mil chuvas
Da vida poderão
Escolher-me por alvo

Mas que importa
O que o tempo gravará
Na minha pele, à sua passagem

Com um dedo apaziguante
Saberei acariciar as feridas
Como uma Mãe acaricia os cabelos de um filho

O Silêncio
Em grande Mestre sábio
Me cantará canções de Ninar
Do alto da sua voz dócil

O meu coração
Se despojará então
De todos os pesos inúteis

E quando chegará o dia
Onde o meu tempo cairá por terra
Como um fruto maduro

A morte me encontrará então
No subtil equilíbrio
De uma existência tranquila.

(Carmen Cupido)
(Tradução/Adaptação do poema "Fruit Mûr"
 in Le Silence est un mot comme un autre)

domingo, 17 de abril de 2011

Perguntas





















Quem se levanta
E não mais se arrasta
E grita a palavra
Basta?

Quem clava
O derradeiro prego
Pancada
No ego
Pedrada
Nos podres
Da mente
Dos Ogres
Com língua
De serpente
Que ferram, fundo
O dente
Na garganta do Mundo?

Ai Deus, quem trava
O canino que se afunda
E o sangue que jorra, abunda?

Quem se levanta
E não mais se arrasta
E grita a palavra
Basta?

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Abraça-me

                 

(desconheço o autor da imagem mas apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Abraça-me,
Como nunca, como ninguém
Faz dos teus braços
Um baloiço de laços
Que me embala
Quando o medo vem

Lá fora, o mundo
Parece ter perdido o fundo
E sem chão, meus pés
Caminham a lés
Perdidos da estrada, perdidos da fada
Que me guiava...

Abre-me os teus braços
Recolhe os pedaços
Das asas que parti
A voar à toa por céus baços
Beija-me a ferida
Quero voltar a casa, ando perdida

Abraça-me,
Como se os teus braços fossem
Um boca à boca que me salvasse
Do ar impróprio, incasto
Do mundo que é vasto
Ai Deus que morro, não respiro
Na garganta, desfalece o último suspiro

Abraça-me,
Apaga, ao dia, a luz
Arranca-me a cruz
Que me pesa no peito
E faz dos teus braços o leito
Onde à noite, guerreira cansada, me deito!

(Carmen Cupido)