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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Quero dizer-te, Amor

 


Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
És uma raíz profunda
Uma árvore majestosa
Que se ergue, ereta e digna
Ao assalto do que sinto
Do ar que respiro e também do que sou
Em todas as coisas que faço e sonho

Tua presença, imponente
Me agita vertiginosamente
E me embarca inteira
Nos teus ramos vigorosos
Num abraço apertado e fogoso
E d'entre as tuas folhagens dançantes
Vejo estrelas cintilantes
A desmaiar, incessantes
No fundo dos meus olhos

Às vezes,
Acordo de alma húmida
Na alva do que poderia ter sido
E o meu coração chora
Águas errantes que correm
Sabe-se lá para onde
Sob a lua fosforecente
Que triste e condescendente
Do alto da sua distância zenital
Me escruta.

Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
És um horizonte oculto
Onde os dias perseguem os traços do teu rosto
E onde me revejo, por vezes,
A enganar a saudade
Fingindo beijar teus lábios róseos
E sabes?? Quase, quase, lhes sinto o gosto

Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
A sede de ti parece não ter jeito
E esta absoluta sofreguidão que sinto
No céu da minha boca
É uma aridez atroz que me arranha a garganta
E me empurra para uma noite perpétua
Onde o vento uiva o agre lamento
Que eu tanto amordaço cá dentro...

Quero dizer-te, Amor!

(Carmen Cupido)


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Ao toque da Primavera


É hoje, enfim
Que a alva irrompe
Com o seu canto de galo
Dos dias grisalhos
Que desfalecem na matriz infecunda
Do velho inverno que tombou
E a sua gelidez se estilhaçou
Em mil cores que se verteram
E a correr, divinas, foram
Acordar as papoilas,
O alecrim, as malvas
E todos os outros
Seres silvestres
Nos campos dormentes

Ao toque da Primavera
As pálpebras do mundo
Levantam-se de repente
Para o dia surgente
Que as espera
E o seu novo corpo ciliar
Ornado de esmeraldas
Faz sombra à pupila
Que de tanta beleza e luz se contrai
E a iris, enciumada e receosa
Afana-lhe a cor
À joia preciosa

O sol desponta
Agora possante
E de um só raio rasga as nuvens
Que o retinham
Num limbo borralhento
Ora, logo as safiras
Que trazia no bolso se soltaram
E foram salpicar o céu
Que espanou as cinzas
Ao seu vestido cor de infinito
E o solar espaço que ficou
Foi tomado de assalto
Por anjos, pássaros e borboletas
A inebriar-se em alto voo
Do mel de viver
E a vida a obrar; e a vida a zoar
Na própria colmeia

Vai, Inverno, vai
Vai-te embora
Que o tempo passa e nada se demora
Fecha os olhos só o instante
De dar descanso à tua velha carcaça
Silêncio, nem mais um rumor
Não roubes o tempo
De canto ao rouxinol
Nem o bocejo às flores
Que se espreguiçam 
Na lentidão de se fazer fruto
No alto das cerejeiras
E nem a mim o malmequer
Urge-me desfiar-lhe as pétalas
Para ver se o meu amado bem me quer
Ou bem me quer ou bem me quer

Vai, inverno, vai
Vai-te embora
Porque o tempo passa e nada se demora
Que não se te conceda nem mais um segundo
Pois, lá ao longe, lá ao fundo
Já o Verão se pousa
Nos seus fios dourados!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Alva









































(Salvador Dali, flores surrealistas)


Vou acender o sol
E acordar a alva na folha morta.

Rasgar valas com pluma de luz
No chão ressequido aos pés da Musa.

Arrancar da mente, extirpar do ventre
Um punhado de palavras semente
Que escondi nos cantos do que sou.

Vou com cuidado,
Pois cada verso que planto tem seu reverso
Como rosa tem espinho e arranha a alma.

Cai chuva de segredos na planície do papel
Do alto do céu do mistério dos Deuses.

Logo cores pintam flores
Na pele febril do poema

Nasce do escuro, o horizonte
Como quem acende uma estrela.

(Carmen Cupido)