Mostrar mensagens com a etiqueta Saudade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Saudade. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

D'entre a bruma



D'entre a bruma
Ressurges indene
De saudade beijado

Ouvi-te chegar
No grito inflamado
Das gaivotas alvoraçadas

E vim, apressada
De sentimento esmaecido
Enclausurado no tempo

Gélida e dorida
Sou uma alma sombria
À espera do nascer do dia

Tanto, tanto te escrutei
Com o meu olhar perdido
À procura de abrigo

E vi-te chegar, enfim
Nave a navegar no mar
Das minhas lágrimas salgadas!

(Carmen Cupido)

 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Nostalgia



Debruçada sobre o dia

Caio na nostalgia

Na vontade de evasão

Que corre delirante

Ao encontro da recordação

Gritante


O sonho que desperto

De um além mais perto

Já antes o sonhei,

De tudo e todos os que deixei

Suspensos na saudade

Que me atiça sem piedade


Aqui, de pé, plantada

Sou como flor silvestre

Pelo vento, levada

Para terra alpestre

Sem me saber tremida

Sem me saber perdida


Tudo me leva ao lugar

Que me deu ao mundo

Um murmúrio no ar

Um batimento profundo

Um desejo que se esvai

No rio que vai

Para onde não sei

Sem deixar rastro do que chorei


É triste para quem se sente

Distante, diminuto, ausente

De tudo o que faz bater o coração

Porque não há suplica ou oração

Que traga de volta a vida que passa


E nem as mais belas montanhosas paisagens

E nem as cores que incendeiam as folhagens

Não há beleza; não há riqueza

Não há nada; nem ninguém

Não há rastilho que ateie o brilho

De uma alma deslustrada

Ao seu berço, por fado, arrancada.


(Carmen Cupido)


 

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Saudade




Este pranto é tão somente meu

Ninguém d'outro o verteu

Nem outra alma teve a piedade

De lhe matar a saudade

Nem o desespero que sofreu

Nem nunca sentiu a ânsia

De viver e amar à distância

Tudo e todos os que ama

Nem o sentimento profundo

De estar só no mundo

Quando a tristeza o chama

E o coração grita um lamento

Que se perde no uivo do vento

Nem nunca exclamou a dor

À melancolia prenunciada

Pelo avassalador temor

De a ver, por mil, multiplicada!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Amor Maior

 


E, hoje,
Subitamente,
Surge o teu rosto
Dentre uma nébula antiga
De feridas escondidas

De par em par
Se abre a saudade
E, num bater de penas,
Os teus olhos risonhos
Vêm pousar sobre mim
Com a levez airosa
Do amor maior 
Que se tem

Mãe, 
Tal como na infância,
Vejo o sol a brincar
Com a tua pele trigueira
E a fazer cintilar
Teus brincos de cereja

No ar,
Sinto o frescor 
Dos teus cravos
A querer enganar 
Meus sentidos

E, subitamente,
Bate aquela vontade
De voltar 
Ao ninho, ao lar
 Que eu te aperte
E que me apertes, 
Só mais uma vez
No teu regaço
E na impossibilidade
De tal abraço
Uma lágrima sentida
Rola ferida 
Pela minha alma 
Abaixo...

(Carmen Cupido)



segunda-feira, 19 de abril de 2021

Corcel Alado



Meia amargura, meia doçura
Meia laranja que nunca foi
Meia ausência, saudade inteira
Meio amor secreto e puro
Meio castigo agrio e duro

Meia treva no coração
Meia luz na escuridão
Meio canto na voz hasteado
Meio suspiro na garganta travado
Meio respiro que se expira para dentro

Meio alento em desalento
Meio vazio em peito farto
Meia coragem no intento
De te guardar por perto

Corcel alado de voo abortado
Pedaço de mim à força arrancado
Um tudo que ficou em nada
Na ponta da espada
Que a vida brande contra mim

Assim tu és, em mim!

(Carmen Cupido)

 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Chove


Chove.

Há uma nuvem escondida
Mágoa antiga, cinzenta - encardida
A verter no meu peito.

Sinto que os meus olhos molhados
Acenam à tua ausência, túmido - demorados
Com a mão acirrada da Saudade.

Tanto, que se paro e escuto por um momento
Brada a tua voz no lânguido brado do vento
E o meu coração já apertado, freme, desassossegado.

Como tu não chegas, Amor
Vou desfolhando a desdita ferida
E o teu nome adormece na minha alma dolorida.

Sei que se penso em ti, logo existes
E logo existo, mas não mais avisto
O sonho em que nos vi.

Chove.

E só a chuva vem bater à janela
Para saber de mim no desfiar das horas
Diz-me Amor, porque tanto te demoras?

(Carmen Cupido)


 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Quero dizer-te, Amor

 


Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
És uma raíz profunda
Uma árvore majestosa
Que se ergue, ereta e digna
Ao assalto do que sinto
Do ar que respiro e também do que sou
Em todas as coisas que faço e sonho

Tua presença, imponente
Me agita vertiginosamente
E me embarca inteira
Nos teus ramos vigorosos
Num abraço apertado e fogoso
E d'entre as tuas folhagens dançantes
Vejo estrelas cintilantes
A desmaiar, incessantes
No fundo dos meus olhos

Às vezes,
Acordo de alma húmida
Na alva do que poderia ter sido
E o meu coração chora
Águas errantes que correm
Sabe-se lá para onde
Sob a lua fosforecente
Que triste e condescendente
Do alto da sua distância zenital
Me escruta.

Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
És um horizonte oculto
Onde os dias perseguem os traços do teu rosto
E onde me revejo, por vezes,
A enganar a saudade
Fingindo beijar teus lábios róseos
E sabes?? Quase, quase, lhes sinto o gosto

Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
A sede de ti parece não ter jeito
E esta absoluta sofreguidão que sinto
No céu da minha boca
É uma aridez atroz que me arranha a garganta
E me empurra para uma noite perpétua
Onde o vento uiva o agre lamento
Que eu tanto amordaço cá dentro...

Quero dizer-te, Amor!

(Carmen Cupido)