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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Nostalgia



Debruçada sobre o dia

Caio na nostalgia

Na vontade de evasão

Que corre delirante

Ao encontro da recordação

Gritante


O sonho que desperto

De um além mais perto

Já antes o sonhei,

De tudo e todos os que deixei

Suspensos na saudade

Que me atiça sem piedade


Aqui, de pé, plantada

Sou como flor silvestre

Pelo vento, levada

Para terra alpestre

Sem me saber tremida

Sem me saber perdida


Tudo me leva ao lugar

Que me deu ao mundo

Um murmúrio no ar

Um batimento profundo

Um desejo que se esvai

No rio que vai

Para onde não sei

Sem deixar rastro do que chorei


É triste para quem se sente

Distante, diminuto, ausente

De tudo o que faz bater o coração

Porque não há suplica ou oração

Que traga de volta a vida que passa


E nem as mais belas montanhosas paisagens

E nem as cores que incendeiam as folhagens

Não há beleza; não há riqueza

Não há nada; nem ninguém

Não há rastilho que ateie o brilho

De uma alma deslustrada

Ao seu berço, por fado, arrancada.


(Carmen Cupido)


 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Rosa Púrpura


 


Rosa
Antes de tempo, tolhida
Em tormenta profunda sofrida
Declinou a suavidade
Das pétalas da vida
Espetando os dedos
Sem credos nem medos
Nos espinhos letais
Elegendo assim
O fado ou a sorte
de respirar a agridoce
Fragância da morte
Num canto precoce
Face aos tantos desencantos
Dos seus sonhos empalecidos

Sua alma empurpurecida
Perdeu de vista
A terra prometida
De onde tanto esperou
O leite e o mel
E afinal só o fel
Lhe inundou o peito
No insuspeito despeito 
Da dor de viver monstruosa
Que lentamente, impiedosamente
Dizimou a primorosa
Rosa.

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Chove


Chove.

Há uma nuvem escondida
Mágoa antiga, cinzenta - encardida
A verter no meu peito.

Sinto que os meus olhos molhados
Acenam à tua ausência, túmido - demorados
Com a mão acirrada da Saudade.

Tanto, que se paro e escuto por um momento
Brada a tua voz no lânguido brado do vento
E o meu coração já apertado, freme, desassossegado.

Como tu não chegas, Amor
Vou desfolhando a desdita ferida
E o teu nome adormece na minha alma dolorida.

Sei que se penso em ti, logo existes
E logo existo, mas não mais avisto
O sonho em que nos vi.

Chove.

E só a chuva vem bater à janela
Para saber de mim no desfiar das horas
Diz-me Amor, porque tanto te demoras?

(Carmen Cupido)


 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Quero dizer-te, Amor

 


Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
És uma raíz profunda
Uma árvore majestosa
Que se ergue, ereta e digna
Ao assalto do que sinto
Do ar que respiro e também do que sou
Em todas as coisas que faço e sonho

Tua presença, imponente
Me agita vertiginosamente
E me embarca inteira
Nos teus ramos vigorosos
Num abraço apertado e fogoso
E d'entre as tuas folhagens dançantes
Vejo estrelas cintilantes
A desmaiar, incessantes
No fundo dos meus olhos

Às vezes,
Acordo de alma húmida
Na alva do que poderia ter sido
E o meu coração chora
Águas errantes que correm
Sabe-se lá para onde
Sob a lua fosforecente
Que triste e condescendente
Do alto da sua distância zenital
Me escruta.

Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
És um horizonte oculto
Onde os dias perseguem os traços do teu rosto
E onde me revejo, por vezes,
A enganar a saudade
Fingindo beijar teus lábios róseos
E sabes?? Quase, quase, lhes sinto o gosto

Quero dizer-te, Amor
Que aqui, no meu peito
A sede de ti parece não ter jeito
E esta absoluta sofreguidão que sinto
No céu da minha boca
É uma aridez atroz que me arranha a garganta
E me empurra para uma noite perpétua
Onde o vento uiva o agre lamento
Que eu tanto amordaço cá dentro...

Quero dizer-te, Amor!

(Carmen Cupido)


sábado, 23 de maio de 2020

O Outro Lado


                      (Swamp Peinture acrylique de Zampedroni)


O outro lado,
Grávido
de Longitudes
E Latitudes
Turvas deste
Aqui...

Dimensão
Reflexão sem chão
Um Ser
Às avessas...

Onda distorcida
No olhar da vida
Transborda do sonho
De se ver reunida...

Um...

Querer sentir-se inteira
Apagando a fronteira
Entre margens!

(Carmen Cupido)

(poema publicado em Outubro 2008 no meu site wordpress
Carmen Femme Carmen Mère Carmen tout court)

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A flor e o Fruto


Nasci,
Como a flor que se faz fruto
na vontade de alguém
Um alguém a quem
um pirilampo risonho
lhe luziu num sonho
e com voz de menina
lhe chamou
Mãe!

Sim, sim
Ouviste bem,
num sonho...

Esse olimpo perdido
nos confins do ser
onde o sonho
se faz esperança
e a esperança
se faz criança
ternamente aninhada
Ora no ventre, ora no colo
de alguém... 

Um alguém a quem
Um pirilampo risonho
lhe luziu num sonho
e com voz de menina
lhe chamou
Mãe!

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Eis o Mistério Outonal


Eis o mistério outonal,

Esses dias onde cai bruma
Como quem cai chuva
Para apagar, quem sabe
Os vastos fogos de cores
Que brotam no lugar das flores
Pálidos, todos os verdes, amarelecem
E até as papoilas se calam nos campos e desfalecem...

Lá do fundo da floresta já meio despida
Ecoa um ultimo fado de despedida
Do bico do pisco de rubro peito
Chilreio, em saudades, liquefeito
Canto órfão de sol de verão
A cair no lusco-fusco de um serão
Onde o ogre inverno
Entoando seu opus frio e terno
Envolve a terra com seu glacial manto

Porém, olh'ó espanto
Sentado, languidamente, na embaladeira
Num vai-e-vem junto à lareira
Já o sonho nascituro se sonha prematuro
Botão de primavera em flor !

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tremente Papoila









































(Papoilas Red de NãoSouEuéaOutra Fotografia)

Era eu ainda de noite feita
Nas horas em que o corpo se deita
Mas a alma, sem fé, não dorme, fica de pé
E a sombra espreita; E a sombra espreita

Não sei se no sono, se na folia
Sabes Amor, sonhei-te em mim
E que o sol já bulia...

Buliu tanto e rebuliu que tal rebuliço
Ressuscitou a tremente papoila
Que bailou, espampanante, doida,
Em meu ventre de moçoila

Ai, Amor, toda eu tremia:
Não sei se de calor, se de frio
Se de amor, se de cio...

Vi-me correr, das tripas à aorta; Em devota oração absorta
Ir rogar à minha boca, antes muda e morta
Agora vívida e escarlate; Que enfim se dilate
Na hora em que a rúbida aurora no meu peito embate

Apressei-me então e de, par em par, fui abrir as janelas do meu ser
Para acolher a madrugada mas não sei se foi sonho ou obra de fada
Olhei-me para dentro e eras tu Amor, em mim a florescer...

(Carmen Cupido)

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um gémeo à alma







































Com o ventre a despir os gritos
Sinto-me nua
E por mais que o coração uive à lua
Nem os raios aflitos
A bater na pupila cega do sentir
Explodem a  sombra
Que a si própria se assombra...

É que...
Amar assusta, é medonho
Porque se a noite vem e rapta o sonho
Nem atando o luar
Aos pés da cama , onde o divino se acama
Vai bastar para despregar as asas
E voar
Na febre de buscar
Um gémeo à alma!

(Carmen Cupido)