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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Euritmia

 


Porque lá fora,

O ciclo da vida

É um intérmino mistério

Onde nada é perene

Nesta história de um mundo

Que gira obstinadamente

Eis-nos, vitoriosamente

Às portas de uma nova primavera

Por onde vagueia e se exaspera

O inóspito inverno que com sono

Se adormenta, enfim, sobre o húmus do outono

 

Na atónita invernia

Há uma neblina dissolvida

Onde as gotas rociadas

São, afinal, fadas disfarçadas

A espargir magia

A derramar vida

E, ó espanto; ó encanto!

Logo, logo

Campânulas apressadas

Se elevam do solo rasgado

Rumando ao alto, de caule esticado

E eu, de olho encharcado

Coração em arritmia

Respiração acurtada

Alio-me, extasiada

A esta deleitosa euritmia!

 

(Carmen Cupido)


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Auto-Portrait


Nas minhas mãos 
A essência fresca das cores corre...
Levar aos meus olhos mundos quiméricos
Com sóis de fins de tarde fantasiosa
A pousar sobre mim 
Com seu toque de asa esplendorosa

O tempo pára 
E o instante é um mistério desvendado
A dar vida a universos insuspeitos
Onde não há futuro nem passado,
Só um agora de comprazimento
A reclamar o mínimo milímetro
De todo o seu comprimento


Palavras não há, só o silêncio
Distraído demais para se sentir só...

Nas minhas mãos
A essência das cores corre...
Vai apressada, lá vai ela
Pintar céus policromáticos
No alto da minha tela!

(Carmen Cupido)

 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Eis o Mistério Outonal


Eis o mistério outonal,

Esses dias onde cai bruma
Como quem cai chuva
Para apagar, quem sabe
Os vastos fogos de cores
Que brotam no lugar das flores
Pálidos, todos os verdes, amarelecem
E até as papoilas se calam nos campos e desfalecem...

Lá do fundo da floresta já meio despida
Ecoa um ultimo fado de despedida
Do bico do pisco de rubro peito
Chilreio, em saudades, liquefeito
Canto órfão de sol de verão
A cair no lusco-fusco de um serão
Onde o ogre inverno
Entoando seu opus frio e terno
Envolve a terra com seu glacial manto

Porém, olh'ó espanto
Sentado, languidamente, na embaladeira
Num vai-e-vem junto à lareira
Já o sonho nascituro se sonha prematuro
Botão de primavera em flor !

(Carmen Cupido)