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quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Seara Dourada-Tela Van Goghiana

 



Eis-nos, tu e eu,

Sob o envolvente perigeu

Nesta noite de verão

Onde o silêncio taciturno

Só o é para quem

Não sabe escutar

O violino do vento a executar

Um opus noturno

À perfeição…

 

Eis-nos, tu e eu

Nesta noite madura

De estrelas tremeluzentes

Poesia pura

Versos transluzentes

A alumiar o aqui e o além

E os nossos olhos espantados

Por tanta luz, deslumbrados

Também…

 

Eis-nos, tu e eu

Neste sonho estonteante

Onde os pássaros enamorados

Num bater de asas vibrante

Chilreios agudo-extasiados

Seduzem a lua soberana

No alto do céu

Desta tela Van Goghiana…

 

Diz-me, pois,

Que não é ilusão

Que não se me engana o coração

Que depois de cada tempestade

Guardaremos fé, amor e vontade

Que haverá sempre uma seara dourada

Onde a nossa alma magoada

Se extirpe ao tormento

E se faça leve, embalada

Como espiga ao vento!

 

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Opus

 


Em cada poema meu, Amor
Te faço o fruto maduro
Do meu longo e sofrido conjuro
Talvez oração, talvez ilusão
Caída da minha boca tremente
Na hora em que a garganta consente
Que, por um segundo que seja
A palavra portentosa
(Tal num opus de um violino a uma rosa)
Entoe tudo o que não pode ser dito
Arrancado a ferros ao silêncio infinito
Infinitamente maldito
    Que nos separa...

E eu, poetisa pobre e tão despida
Pela dor de tanto desamor carpida
Desfolho no verso que te declama
O quanto a minha alma te quer e te ama...

E se tu, do alto do torpor em que te encerraste
Tal bandeira em alta haste
Despiedadamente alheio ao chão
Não vês que o meu coração
Se tolhe e se agrisalha
Então, Amor, não há poesia que valha!

(Carmen Cupido)

 



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Eis o Mistério Outonal


Eis o mistério outonal,

Esses dias onde cai bruma
Como quem cai chuva
Para apagar, quem sabe
Os vastos fogos de cores
Que brotam no lugar das flores
Pálidos, todos os verdes, amarelecem
E até as papoilas se calam nos campos e desfalecem...

Lá do fundo da floresta já meio despida
Ecoa um ultimo fado de despedida
Do bico do pisco de rubro peito
Chilreio, em saudades, liquefeito
Canto órfão de sol de verão
A cair no lusco-fusco de um serão
Onde o ogre inverno
Entoando seu opus frio e terno
Envolve a terra com seu glacial manto

Porém, olh'ó espanto
Sentado, languidamente, na embaladeira
Num vai-e-vem junto à lareira
Já o sonho nascituro se sonha prematuro
Botão de primavera em flor !

(Carmen Cupido)