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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Rosa Púrpura


 


Rosa
Antes de tempo, tolhida
Em tormenta profunda sofrida
Declinou a suavidade
Das pétalas da vida
Espetando os dedos
Sem credos nem medos
Nos espinhos letais
Elegendo assim
O fado ou a sorte
de respirar a agridoce
Fragância da morte
Num canto precoce
Face aos tantos desencantos
Dos seus sonhos empalecidos

Sua alma empurpurecida
Perdeu de vista
A terra prometida
De onde tanto esperou
O leite e o mel
E afinal só o fel
Lhe inundou o peito
No insuspeito despeito 
Da dor de viver monstruosa
Que lentamente, impiedosamente
Dizimou a primorosa
Rosa.

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O Infinito



Quem és tu, ó grande imprudente

Que vens amotinar meu Ser dormente

Nesta quase perfeita quietude

Que teci para me esconder de ti

 

Vens e vais e vais e vens

Como os relâmpagos estrondosos

Estilhaçando, impiedosos,

Esta árvore ressequida que me sou.

 

A tua voz, ainda que melosa,

Cai em mim como a trovoada

Que me zoa, ruidosa

Desinquietando-me a alma

 

E quando as tuas mãos me tocam…

Oh, quando as tuas mãos me tocam

Envolvendo-me, por um segundo que seja,

No manto balsâmico que tu sempre foste para mim

Logo o sentimento que tão profundamente soterrei

No abismo que me habita,

Desperta e se agita.

 

Sinto teus olhos medir meu ser inteiro

E nos meus pousados, me adentram, ousados

Com a magnificência de um sol ardente

Que, triunfante, vem desaguar

No mar das minhas veias

 

 De cada gota me inebrio

Porém, sei, sem perder o norte

Que mora, em mim, a pouca sorte

De não ter trono no teu peito

 

Se és aquele que sabe ver

Mundos em grãos de areia

Céus vastos em flores selvagens

O infinito em palmas de mão

Porque é tão cego teu coração

Ao amor que por ti sinto?

 

Não sei se amar-te

É obra de fada ou fado amaldiçoado

Sortilégio ou sina que me tem

Criatura presa, dos teus lábios rosáceos

 

Eu só me sei

Terra de ti fecunda

Onde mesmo na tua ausência

 Tua presença me inunda.


(Carmen Cupido)




 

domingo, 30 de agosto de 2020

A Bênção


Do alto
Da minha descrença
Ergo aos céus
As minhas pálpebras doridas
E assim
Atravesso eu a vida
Sem nunca vislumbrar
As oferendas
Recebidas

Parece-me padecer
De uma lei suprema
Que me deu sofrida
À luz do mundo
Com todas as maldições
Do universo
A recair sobre mim
E sem nunca aprender
A torcer o pescoço
À força implacável
Deste meu Fado

Serei eu
Um fruto esconjurado
Por uma cruenta praga
Que o diabo bafejou
Aos quatro cantos
Do que sou?

Serão
A adversidade
E o sofrimento
A superior natureza
Do ser e da vida
A única maneira
De crescer
Em valor
E em sabedoria?

Rogo
Para que a desfortuna
Que avisto
Efeito ou talvez não
 Da desilusão
Que me rói por dentro
Não encerre
 Meus olhos
De pobre mortal
Na cegueira
De não saber
Ver a bênção
Que recebi
No preciso segundo
Em que nasci…

A VIDA!

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Eis o Mistério Outonal


Eis o mistério outonal,

Esses dias onde cai bruma
Como quem cai chuva
Para apagar, quem sabe
Os vastos fogos de cores
Que brotam no lugar das flores
Pálidos, todos os verdes, amarelecem
E até as papoilas se calam nos campos e desfalecem...

Lá do fundo da floresta já meio despida
Ecoa um ultimo fado de despedida
Do bico do pisco de rubro peito
Chilreio, em saudades, liquefeito
Canto órfão de sol de verão
A cair no lusco-fusco de um serão
Onde o ogre inverno
Entoando seu opus frio e terno
Envolve a terra com seu glacial manto

Porém, olh'ó espanto
Sentado, languidamente, na embaladeira
Num vai-e-vem junto à lareira
Já o sonho nascituro se sonha prematuro
Botão de primavera em flor !

(Carmen Cupido)