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quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Auto-Portrait


Nas minhas mãos 
A essência fresca das cores corre...
Levar aos meus olhos mundos quiméricos
Com sóis de fins de tarde fantasiosa
A pousar sobre mim 
Com seu toque de asa esplendorosa

O tempo pára 
E o instante é um mistério desvendado
A dar vida a universos insuspeitos
Onde não há futuro nem passado,
Só um agora de comprazimento
A reclamar o mínimo milímetro
De todo o seu comprimento


Palavras não há, só o silêncio
Distraído demais para se sentir só...

Nas minhas mãos
A essência das cores corre...
Vai apressada, lá vai ela
Pintar céus policromáticos
No alto da minha tela!

(Carmen Cupido)

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Coração de Leão



Há sempre
Uma força tranquila
No coração do Leão
Que cada dia
Brada aos céus
Rugidos feros
Ora de alento
Ora de luta
Ora de advertência
a cavar, ao perigo, a distância
Suas poderosas garras
Sempre prontas a cravar
A carne do mundo
E lamber o sangue ardente
Que brota da ferida
De viver com o peito aberto
Frente à avidez dos abutres
Que se aninham 
Nos ramais mais altos
Dos sentimentos vis
Que tronam nos tórax alheios

Às vezes,
Porém,
Perde o seu vigor
Ou então não o encontra
No mais além de tanta dor
Desesperança tanta
E, nessa exata hora
Parece-lhe sentir-se
Diminuta mariposa
A acoitar-se, rendida
Entre as pétalas
Da mais sedosa
Flor da selva
Que alcança.

(Carmen Cupido)

domingo, 30 de agosto de 2020

A Bênção


Do alto
Da minha descrença
Ergo aos céus
As minhas pálpebras doridas
E assim
Atravesso eu a vida
Sem nunca vislumbrar
As oferendas
Recebidas

Parece-me padecer
De uma lei suprema
Que me deu sofrida
À luz do mundo
Com todas as maldições
Do universo
A recair sobre mim
E sem nunca aprender
A torcer o pescoço
À força implacável
Deste meu Fado

Serei eu
Um fruto esconjurado
Por uma cruenta praga
Que o diabo bafejou
Aos quatro cantos
Do que sou?

Serão
A adversidade
E o sofrimento
A superior natureza
Do ser e da vida
A única maneira
De crescer
Em valor
E em sabedoria?

Rogo
Para que a desfortuna
Que avisto
Efeito ou talvez não
 Da desilusão
Que me rói por dentro
Não encerre
 Meus olhos
De pobre mortal
Na cegueira
De não saber
Ver a bênção
Que recebi
No preciso segundo
Em que nasci…

A VIDA!

(Carmen Cupido)