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terça-feira, 10 de maio de 2022

A Hora Suspendida



Há

Nos meus dedos

Sonhos e segredos a fluir

E espátulas a esculpir

Sóis, luas e estrelas

No alto da minha tela

 

E a cada vez

Pressinto que o céu

Rasga o seu véu

Espargindo cores

Aclamando amores

E talvez ninando dores

No berço que eu lhes dou

 

Vejo mundos variados

Alçar-se de fundos esmaiados

E dentre os fios entretecidos

Do algodão cru imaculado

Seres inertes, inanimados

Correm fruir da vida

Na hora suspendida

Em que lhes sinto o coração

Pulsar na cova da minha mão

 

Tudo isto me vem não sei de onde

Nem sei em que lugar de mim se esconde

Eu não sou nada nem ninguém

Apenas o instrumento de passagem

Entre uma e a outra margem!

 

(Carmen Cupido)


 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Fruto Maduro


O tempo poderá vir
Cavar os seus sulcos
Na minha fronte

Soprar aos quatro cantos
Do que sou
Todo o furor do mundo

As mil chuvas
Da vida poderão
Escolher-me por alvo

Mas que importa
O que o tempo gravará
Na minha pele, à sua passagem

Com um dedo apaziguante
Saberei acariciar as feridas
Como uma Mãe acaricia os cabelos de um filho

O Silêncio
Em grande Mestre sábio
Me cantará canções de Ninar
Do alto da sua voz dócil

O meu coração
Se despojará então
De todos os pesos inúteis

E quando chegará o dia
Onde o meu tempo cairá por terra
Como um fruto maduro

A morte me encontrará então
No subtil equilíbrio
De uma existência tranquila.

(Carmen Cupido)
(Tradução/Adaptação do poema "Fruit Mûr"
 in Le Silence est un mot comme un autre)