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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ao Zénite do Poema



Com o passar do tempo
Afoga-se-me a voz
Eu sei
Num mar de silêncio
E a palavra em cio
Perde o pio
Quando vê
O estridente sentimento
Arrastado pelo vento
Ir cair
Num deserto 
De ocos ecos
Onde as raízes ressequidas
Dos meus versos
Já não têm a força
De esticar o caule
E erguer a flor 
Ao zénite do poema

Porém,
Não temo o silêncio
Nem seu mudo reinado
Pois, por detrás
Dos meus lábios apertados
Se espreito
(Quando o escuro bate)
Bem no fundo
Do meu peito
Vejo estrelas a cintilar
E se eu me calar,
Ouvi-las-ei suspirar
Mil cantos rubros
Que eu ainda te hei de contar, meu amor!

(Carmen Cupido)


 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Raios Mil


Quem sou?
O que faço aqui?
Por que caminhos me perdi
E se perdeu o ventre que me pariu

Foi naquele intérmino dia
Abominoso e escuro
Que trovoou
Sobre esta árvore
Tão verde e tão tenra
Que me sou
Raios mil pontiagudos
Que me racharam ao meio
E o céu, sedento de almas,
Se abriu de par em par
E me a levou

Gritei estridentemente
Do alto da minha boca muda
Ao vê-la, ali, deitada
Num leito de tábuas estreitas
A ser pela terra engolida
E a chuva caía, mansa e fria
A lavar-me os olhos
Das estrelas implodidas
Que me jorravam do fundo do ser

Vi-me,
Por Deus, despojada
Da minha fonte placentária
Impiedosamente arrancada
À minha mais profunda
Raiz e razão
De luz e de vida…

E desde então
Condoo-me nesta voragem
De dor e incompreensão
E não encontro em mim
A humildade da aceitação
Nem o perdão
Nem a outra face
Do bom cristão.

(Carmen Cupido)