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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Massa sem jeito



Toma o meu corpo, Amor
E desculpa a hóstia amarga
Desta massa sem jeito

Oxalá tuas mãos, Amor
Lhe dêem o jeito
Das flores que me bailam no peito

Oxalá teus olhos, Amor
Passem sem ver a carne disforme
Para somente reter a luz
Que nas formas se funde

Dou-me, num abandono nu
E o vestido é tão cru
Que não se adivinha
Que o seio pendente é afinal uma estrela cadente
Que a coxa grossa e colada é planície semeada
E a barriga redonda, ai Amor é onda
Pronta a enrolar-se...

Sabes, Amor
Que nesta hora, até o arrepio cora
Nos poros, na pele; e o corpo ora
Porque não tem onde
E a carne, onde se esconde?

Toma o meu corpo, Amor
E desculpa a hóstia amarga
Desta massa sem jeito

Dou-te tudo de mim, Amor
A pureza, o sol, o fruto, o sabor
Tudo o que tenho
E se de mim medires o tamanho
Que seja só o do coração!

(Carmen Cupido)