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terça-feira, 26 de setembro de 2023

Madrigal Inflamado


Madrigal inflamado

De tulipas que flamejam

Em seu santuário matizado

Vejo-as ondular ao vento

E cada movimento

É uma pausa semibreve

Do meu sopro leve

Suspiro suspenso

Que engulo para dentro…

 

É tal a embriaguez de cores

A salpicar o vale e a fazer dele

Um palco enrubescido

Onde a brisa e as flores

Num impulso incendido

Arfantes se enlaçam

e o Uno que formam se lança

Num fascinante, quase provocante

Pé de dança

Ao som do espanto

Que o puro encanto

Semeia nos meus olhos!

 

(Carmen Cupido)


 

segunda-feira, 20 de março de 2023

À Janela...

À janela…


Há rosas amarelas

No peitoril, estrelas

A sugar o sol…

 

Quão artifício flavescente

Emoção crescente

A estalar na retina…

 

Até a mínima rosa

hasteia, estrondosa

Seu fulgor fulvo

 

Vão de braços ao alto

Em áureo sobressalto

A esticar o caule…

 

E não há espinho que valha

Ou nuvem grisalha

Que desalente o ardor

 

Há no ar um espanto

Tal é o encanto

Que me pulsa no peito…

 

Sinto tamanho aperto

Que a minha alma em desconcerto

Engole o suspiro para dentro!

 

(Carmen Cupido)



 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Corcel Alado



Meia amargura, meia doçura
Meia laranja que nunca foi
Meia ausência, saudade inteira
Meio amor secreto e puro
Meio castigo agrio e duro

Meia treva no coração
Meia luz na escuridão
Meio canto na voz hasteado
Meio suspiro na garganta travado
Meio respiro que se expira para dentro

Meio alento em desalento
Meio vazio em peito farto
Meia coragem no intento
De te guardar por perto

Corcel alado de voo abortado
Pedaço de mim à força arrancado
Um tudo que ficou em nada
Na ponta da espada
Que a vida brande contra mim

Assim tu és, em mim!

(Carmen Cupido)

 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Grão de Ninguém



Olho a simplicidade da flor silvestre
do alto da sua singeleza desconcertante.
Herdou o porte primoroso da Mãe gestante
Que pariu, esventrada, tal beleza ilustre.

Num sopro, aos quatro ventos, lançada
raizes com asas, nasceu do nada.
Um grão de ninguém que no solo se ateia
A pincelar os campos que ninguém semeia.

Ela é fruto, é luz, é flor
do suspiro profundo, da carícia de amor
do sol sobre o ventre da Terra
a emprenhar de vida num secreto tremor

Ó que esplendor; Ó que esplendor!

(Carmen Cupido)


quinta-feira, 4 de março de 2010

Simplicidade



Desprendem-se as palavras
Do peito da Poetisa
Com a mesma simplicidade
Com que cai a folha...

A folha...
Cor do ardor
Que estremeceu 
O coração das árvores
Quando o frio 
Da realidade se misturou
Ao calor dos sentimentos...

Soltou-se
No seu último 
Suspiro de vida
No ramo do poema...

Flutuou no espaço
Corpo de poesia
Meio acordada meio adormecida
Já com um pé no sonho que há-de vir...

E logo veio cair
Aos pés do outono
Adubando-lhe o ventre
Com húmus de primavera!

(Carmen Cupido)