quinta-feira, 30 de abril de 2020

A flor e o Fruto


Nasci,
Como a flor que se faz fruto
na vontade de alguém
Um alguém a quem
um pirilampo risonho
lhe luziu num sonho
e com voz de menina
lhe chamou
Mãe!

Sim, sim
Ouviste bem,
num sonho...

Esse olimpo perdido
nos confins do ser
onde o sonho
se faz esperança
e a esperança
se faz criança
ternamente aninhada
Ora no ventre, ora no colo
de alguém... 

Um alguém a quem
Um pirilampo risonho
lhe luziu num sonho
e com voz de menina
lhe chamou
Mãe!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A Matriz da Simplicidade


Rendo-me
(Sem espanto)
Ao encanto
Contido
Na ímpar
Vastidão
Das possibilidades
Do Ser
Quando este
Se aferra
(Como via de vida)
À simplicidade...

A simplicidade
Essa matriz tranquila
Isenta dos fragores
De narcisismos
exacerbados
De Orgulhos
Desmedidos 
De ignorâncias
desarmónicas
Onde a aceitação
Da própria pequenez
É sem grande espanto
(Olha o encanto)
A força derradeira
Para engrandecer
O Ser…

No que este possui de mais excelso…

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Livro e a Rosa


Abro-te, livro
Como quem desvenda
Os segredos de um jardim
Nos meus olhos, suspendido.

Com o dedo, desfloro
Os teus sulcos escritos
Onde os versos
Sob meu toque,
Se arrepiam

E as palavras
Que, de transpiradas, respiro
Têm aromas de terra molhada
Onde a rosa selvagem
se me entrega,
Cativa.

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Fruto Maduro


O tempo poderá vir
Cavar os seus sulcos
Na minha fronte

Soprar aos quatro cantos
Do que sou
Todo o furor do mundo

As mil chuvas
Da vida poderão
Escolher-me por alvo

Mas que importa
O que o tempo gravará
Na minha pele, à sua passagem

Com um dedo apaziguante
Saberei acariciar as feridas
Como uma Mãe acaricia os cabelos de um filho

O Silêncio
Em grande Mestre sábio
Me cantará canções de Ninar
Do alto da sua voz dócil

O meu coração
Se despojará então
De todos os pesos inúteis

E quando chegará o dia
Onde o meu tempo cairá por terra
Como um fruto maduro

A morte me encontrará então
No subtil equilíbrio
De uma existência tranquila.

(Carmen Cupido)
(Tradução/Adaptação do poema "Fruit Mûr"
 in Le Silence est un mot comme un autre)

terça-feira, 3 de março de 2020

Sem Retorno. Infinito. Temo.



Temo,

Que o crepúsculo da vida seja somente um céu torvo de goela aberta.
Que pela sua garganta abaixo, resvale o ténue traço do tempo que passou, que se foi, sem saber para onde, quando e como.

Temo,

Que o cansaço dos caminhos percorridos se aferre a mim como cão a um osso.
Que na carne mordida doa a ferida mas que o grito na boca se me engula para dentro e ensurdeça o canto claro das vivências que vivi.

Temo,

Que todos os sonhos abortados pelos meus olhos semimortos tomem o meu peito como um leito de estrelas implodidas.

Temo,

Que o tempo deslize em mim e que a mórbida atonia de me ver cediça me deixe na afonia na hora de espantar a morte que me cobiça.

Temo,

Que desfaleça o sol num bater de pestanas e que nesse meu último passeio orbital, eu não escape à atração fatal do buraco negro engolidor de almas onde o vazio é...

Sem retorno. Infinito. Temo.

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Pássaro na Gaiola


A fingir-me poetisa, tentei escrever o silêncio. Quem já o ouviu, diz por aí que o bicho não se deixa apanhar, nem ouvir e muito menos escrever, mas eu não acreditei. Com a primeira pluma que me caiu na mão, lancei o laço ao indomável dragão. Refreei-o bem, rédea apertada, para que não fuja e, sobretudo, não cuspa o fogo para que o corpo do silêncio não se faça cinzas antes mesmo que o som se faça letra deitada no papel. O primeiro gatafunho que sarrabisquei era uma dor que vi sair da boca, mas a dor era amarga e a garganta estreita. Parei logo. Apaguei.

Depois, armei-me de coragem e deixei-me escorregar caminho abaixo. Qual poetisa, meia sem jeito, se detém sem escrever o feito? Com medo ou sem, avancei. Quis continuar a rebuscar, mas o declive era íngreme demais e resvalei mais do que muito além; fui parar onde eu não queria, de traseiro ao chão, à entrada do coração. No coração não quis entrar. Eu tinha a certeza de que aquilo era feito de areias movediças ou, pior, de lava de vulcão. Incinerar-me tão cedo, isso não! Temi lá entrar; confesso, agitava-me o medo de encontrar o amor que lá morava morto, envenenado por tanto desamor que lhe deram a provar. Dessossegou-me o pensamento de lá encontrar os afetos virados do avesso feitos desafetos, as ilusões afogadas em desilusões e os sonhos esvaecidos! Sim, parei e não entrei. Olhei para trás, quis apagar as linhas e contra linhas que acabei de rabiscar, mas o coração era um tal resvaladouro que não consegui escalar. Como voltar atrás não podia, prossegui, mas logo, logo me arrependi. Não é que no meio do peito, havia um horrífico cavernal vazio! Chame-se-lhe brecha, chame-se-lhe fenda, chame-se-lhe escarpada fissura, cair de alto seria morte segura. Olha o suor fino pelo rosto a baixo. Num desarmónico sobressalto, a linha do silêncio quase, quase irrompeu num primeiro tímido rugido, mas mal saído foi logo, logo engolido. Dei meia volta e procurei um outro atalho que me levasse ao segredo do silêncio.

Foi então que, de longe, avistei uma espécie de gruta, uma espécie de túnel e ao fundo, uma luz! Pensei para mim mesma: Eureka, é por aqui o ventre onde o silêncio se faz criança! Mas ai Deus, nem quero contar o que eu lá fui encontrar.

Pois é, aquele ventre era mais um pantanal cujas águas eram compostas por um emaranhado tal de dores passadas, de deceções vividas, de sangue vertido e, não é que, as lágrimas que derramei a vida inteira, e que julgava esquecidas, evaporadas, estavam ali desaguadas. Aqui e acolá, no meio de tamanha miscelânea, lá ia encontrando uma alegria vivida, um momento de graça, um riso, um poema escrito ou um filho parido e ainda bem, respirei de alívio, respirei fundo pois nem tudo o que silêncio contém é infesto! Soube então que, ali, na introspeção e no silêncio que procurava encontrei, afinal, a minha própria vida a querer deslizar de mim como a gota de orvalho cai da rosa ao primeiro raio de sol.

E como reter algo que quer voar de mim? E como voar, se não se tem asas? E foi assim que fui saber de mim no espelho branco da parede da minha sala e, sem grande surpresa, descobri-me Pássaro na gaiola! E se o ditado diz que pássaro na gaiola não canta, lamenta; concluo que sou uma alma feita de chilreios abafados!

Alguém, por favor; alguém que me ensine a liberdade!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 4 de abril de 2017

Eu, aquém; Ela, além


Tudo,
em mim, 
se tolhe
quando 
a morte 
vem e colhe
a última Rosa Branca 
dentro de mim
e, de tão doce e graciosa, a tranca
Num longe de mim que não tem fim...

Eu, pesada pena, aqui no aquém; Ela, leve pluma, lá no além!


(Carmen Cupido)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Eis o Mistério Outonal


Eis o mistério outonal,

Esses dias onde cai bruma
Como quem cai chuva
Para apagar, quem sabe
Os vastos fogos de cores
Que brotam no lugar das flores
Pálidos, todos os verdes, amarelecem
E até as papoilas se calam nos campos e desfalecem...

Lá do fundo da floresta já meio despida
Ecoa um ultimo fado de despedida
Do bico do pisco de rubro peito
Chilreio, em saudades, liquefeito
Canto órfão de sol de verão
A cair no lusco-fusco de um serão
Onde o ogre inverno
Entoando seu opus frio e terno
Envolve a terra com seu glacial manto

Porém, olh'ó espanto
Sentado, languidamente, na embaladeira
Num vai-e-vem junto à lareira
Já o sonho nascituro se sonha prematuro
Botão de primavera em flor !

(Carmen Cupido)

sábado, 27 de agosto de 2016

Dorme, Santo, o Pequenino





Silêncio,
Que o crepúsculo
Vai cantar
Uma canção de ninar
Ao Sol menino
 Adormece o pequenino
No colo da noite
Cor de basalto
E logo, lá no alto
O céu dourado
Tão de ternura, corado
De olhar pregado
Na cena imaculada
Apaga a luz
E acende as estrelas...

E não é que,
No sonho do menino,
(dorme, santo, o pequenino)
Jorram de um flautim
As promessas de cetim

De todas as auroras que hão-de vir !

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Grão de Ninguém



Olho a simplicidade da flor silvestre
do alto da sua singeleza desconcertante.
Herdou o porte primoroso da Mãe gestante
Que pariu, esventrada, tal beleza ilustre.

Num sopro, aos quatro ventos, lançada
raizes com asas, nasceu do nada.
Um grão de ninguém que no solo se ateia
A pincelar os campos que ninguém semeia.

Ela é fruto, é luz, é flor
do suspiro profundo, da carícia de amor
do sol sobre o ventre da Terra
a emprenhar de vida num secreto tremor

Ó que esplendor; Ó que esplendor!

(Carmen Cupido)


sexta-feira, 5 de abril de 2013

A tua sombra, gigante abismal

























Em silêncio,
Suster o peso da tua ausência
Ante ou clarividência
De um prenúncio lacri(Mal)
Que se me ateia na veia
A fazer de mim um ramal fantasmal
Onde só a tua sombra
Gigante, abismal
Ambula, vagueia, deambula
E nesse entretanto,
Num murmúrio, nem sequer pranto
Tudo em mim se morre, se anula
O ar, o amor, a luz e a vida
E eu aqui, (deixa-me rir)…
Já meia morta, a querer à força
Estancar a ferida
Da tua ausência
Em silêncio.

(Carmen Cupido)

sábado, 17 de março de 2012

Funambulismos de salto alto





















Atravesso o instante
Em que o percalço
Me faz perder o salto
E me deixa descalço
Face ao vazio

Olho a carne que se faz aço
Sobre o fio quando eu passo
E a dor não há, não é, na ponta do pé

Sei, é o Eu lá do fundo que mo diz,
Que o grito do olho não faz sentido
Qual fruto perdido, Precocemente caído
Da árvore da alma

A vida é avançar
Equilibrar o desequilíbrio
Quão grande o desafio
Funambulismos de salto alto
Sobre o fio tenso e estreito do ser

No espaço
Já exíguo do passo
Não cabe o lamento
Só a vontade, o alento
De continuar...

(Carmen Cupido)

domingo, 11 de março de 2012

Lacrado



























Lacrei
O orgão lacaio
Em pleno ensaio
Do sentimento
Mas o caçula
Abulado criado
Mesmo lacrado
À fula-fula
Por dentro, pula!
Por fora, a bula!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Alva









































(Salvador Dali, flores surrealistas)


Vou acender o sol
E acordar a alva na folha morta.

Rasgar valas com pluma de luz
No chão ressequido aos pés da Musa.

Arrancar da mente, extirpar do ventre
Um punhado de palavras semente
Que escondi nos cantos do que sou.

Vou com cuidado,
Pois cada verso que planto tem seu reverso
Como rosa tem espinho e arranha a alma.

Cai chuva de segredos na planície do papel
Do alto do céu do mistério dos Deuses.

Logo cores pintam flores
Na pele febril do poema

Nasce do escuro, o horizonte
Como quem acende uma estrela.

(Carmen Cupido)