quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Vice-Versa




















No acto de virar a página, não sei:

Se é o dedo que vai à língua
Ou vice-versa...

Se é o dedo que vai à página
Ou vice-versa...

Se sou eu que viro a página
Ou vice-versa...

(Carmen Cupido)

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um gémeo à alma







































Com o ventre a despir os gritos
Sinto-me nua
E por mais que o coração uive à lua
Nem os raios aflitos
A bater na pupila cega do sentir
Explodem a  sombra
Que a si própria se assombra...

É que...
Amar assusta, é medonho
Porque se a noite vem e rapta o sonho
Nem atando o luar
Aos pés da cama , onde o divino se acama
Vai bastar para despregar as asas
E voar
Na febre de buscar
Um gémeo à alma!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O que não se diz






















Querer ter sempre a última palavra
É, às vezes, a derradeira estocada
Qual faísca a cegar o olho, qual mal que a língua lavra
A repentina mas certeira cutilada
Um cavar brechas no fundo do ser
Um não parar até o peito do outro fender
Dar o rasgo vertical definitivo
À imagem feliz
Por não saber calar
O que não se diz!

(Carmen Cupido)

domingo, 15 de janeiro de 2012

A vida não é um rio tranquilo



De nada vale o atavio
Que se lhe dá ao nosso rio
Se a vida, algoz
De tanto atafulhar a foz
Vai rebentar a inocência
Fustigar a essência
Das águas que passam por nós

E...
Pode o corpo espasmar
Pode a alma berrar
Pode o pulso chagar
Que não há mão a cerzir que valha

Viver no desamor é mesmo assim
Doer,  num dói sem fim
Abafar o Ai, mal que ele sai
Levantar, mal que se cai

É caminhar sozinho
Ir morto  vivo no caminho
E ainda assim sorrir por fora
Ignorar os queixumes da hora

Ao coração doente, silenciosamente
Remendar os cantos; e os pontos serão tantos
Para salvar o Amor que por lá anda a flutuar
Ai Deus, se tardas mais um segundo
Sinto que me afogo, me afundo!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Conto de Natal



Noite e dia, Maria caminha
Ao ritmo da dor que no seu ventre se aninha
Torce e retorce, entre dedos, o terço
À procura de leito, à procura de berço
E tanto fervor tem sua prece
Que o céu, chorando, lhe tece
Um fio d'ouro que a conduz
À manjedoura onde dá à luz
O fruto divino
Maria, tão cheia de graça
Com amor, com todo o seu calor
No seu colo enlaça
O Messias, o menino
Aquele que nasceu sem nada, pequenino
Mas logo no primeiro instante
Embora o mundo o adore e lhe cante louvores
Viu nos olhos de Jesus, a cruz
A mesmíssima onde morrerá, de alma ao léu
Por querer Amar e não Matar
E mesmo assim, Avé, Avé
Maria sorriu, de seio ao ar
E pôs-se a cantar canções de ninar
Ao Soberano!

(Carmen Cupido)


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sangue nos dedos da palavra casta





















Silêncios mugem
Nas minhas tripas
Como cem cães a um osso
Ladram...

Animais enraivecidos
Ou quem sabe, talvez feridos
De dentes afiados, fincados
Lambem sangue nos dedos
Da palavra casta

Vermes dementes
Rasgam as barrigas
Das chagas antigas
Que abertas de par em par
Vão verter, vão jorrar
Sua mortualha no leito do poema!

(Carmen Cupido)

sábado, 19 de novembro de 2011

O Céu ri




















Por vezes,
Em noites prenhas de sombra e medo
Eu choro! Não é segredo.

E para consolar
As lágrimas que caem no abismo do sono
Prometo-lhes o céu...

E não é que,
A meio caminho do sonho
Uma armada de anjos vem colher o líquido precioso
Que, ao cair dos meus olhos, têm forma de diamante!

Vejo então,
Mil mãos de luz a lançar
Do chão para o ar
Estranhas pedras a brilhar.

Olha!
Parece chuva a chover de pernas para o ar!

Pouco a pouco
A sombra deslavada, vai...
O medo demolhado, cai...

E na noite, antes dolente, agora um sopro quente
Semeia estrelas e o céu
Ri!

(Carmen Cupido)

sábado, 5 de novembro de 2011

E tu no banco a esperar





















(Foto "The Fog" by Anca Cernoshi)


Cai o véu
Cai branco
Cai do céu
Para te cobrir


Teu olhar é réu
Sentado no banco
De rugas ao léu
A vê-lo cair...


Há
Neste inverno
Um sol já terno
A querer fanar


Será
Noite a chegar
Em alto porte
Ou anda a morte
Ao Deus dará
De manto branco
E tu no banco
A esperar!

(Carmen Cupido)

domingo, 30 de outubro de 2011

A farpa















(Foto proveniente do Teatro "A Farpa" da Companhia Miníma)

Há sempre uma farpa
Que se elide no ventre do Poeta

Uma espécie de canto lutuoso
Declamando notas álgicas diversas

Um flúmen menstrual de Musa
Esculpindo margens na palavra purpúrea

Caules subterrâneos na escuridão do poema
Bolbos de madrugadas várias a nascer para dentro

Verbos, versos, com um monstro bicípite na ponta
Empurrando as letras em tormentos contrários

Rodopios ardilosos que a conta – gotas
Vão desfolhando as bubas do poema

Sarrabiscos aos Ais com asas de pedra
Que cravados na terra, admiram os céus

De longe, de longe...

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

De bruços sobre o dia

















Ninavam no berço do horror
Todos os silêncios que nos davas a comer
Óvulos violência que fecundavas com o terror
Que, na noite amarrava o sol, para não nascer

Nos cantos da casa, tudo rezava
A Mãe, os filhos, o sal e até o vento
Mas Deus não chegava e nada acelerava
O tempo que se arrastava, de tão lento...

Os gritos eram ecos quebrados
Contra os quatro muros
Mal saídos da boca, eram logo abafados
Nos teus nevoeiros escuros

O amor que não davas
Era pão com bolor
Que engolíamos por temor
Aos regos que cavavas
De cinto em punho

Mas na veia algo havia
Que nos falava, nos dizia
Que amanhã, de bruços sobre o dia
O sol teimoso, nasceria

E nasceu...
Cuspiste tanta ira e de nada te valeu!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Meia Benção, Meia Praga

















És …

Meia Benção, meia Praga
Meia Carícia, meia Chaga
Coágulos dos meus gritos
Que berram agudos, aflitos...
Ai, que ensurdeço por dentro!

És...

Meio Ferro, meio Veludo
Meio Nada, meio Tudo
A palavra que me é dita
No silêncio que me habita...
Ai, o terremoto nas minhas entranhas!

És...

Meia Sede, meia Fonte
Meio Abismo, meia Ponte
Um pé na distância
E o outro pisoteando a ânsia...
Ai, a hera que me trepa o coração!

És...

Meio Tarde, meio Cedo
Meio Belo, meio Ledo
A noite que se apressa
Na madrugada cheia de pressa...
Ai, e ainda assim, o sol em mim, não desponta!

És...

Meia Prisão, meio Mar vastidão
Meia Dor, meia vermelha Flor
Às vezes ardente, cálida
Às vezes doente, pálida...
Ai, a raíz bebâda de riso e de lágrimas!

És...

Meia Vida, meia Morte
Meio Azar, meia Sorte
E persegue-me o desespero
Porque por não te querer
Ai, Amor! Tanto te quero!

(Carmen Cupido)

domingo, 9 de outubro de 2011

À proa

















(Imagem "Outuno II" de DDIArte olhares.com)

E se o arco
Dos teus braços
Fosse um barco?
A derradeira embarcação
E a virgem, figura à proa, fosse meu coração
Que ao sol levanta, aproa
Seu corpúsculo tal uma canção
De embrandecer as ondas que rasga
Como se fossem de papel

Imagina:
Vai alto, furioso, violento
Filar o vento
Num último intento
De te alcançar; alcançar o astro
Antes que a morte venha
E apague o rastro
Do que eu sou, por dentro
Do que eu sinto, no centro

Será sonho?
Querer, em ti, navegar
Ter os teus olhos por mar
Amar; Amar-te, Amar
Antes do outono, do cair da folha
Antes que a vida finde
E no inverno, meu corpo encolha
E a terra com gula
Me engula!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Calar é dom





















(Desconheço o autor desta bela imagem mas apelo a quem conheça,
porque cada autor merece ver reconhecido o mérito do seu trabalho!)

Às vezes,
Calar é dom
Arrancar pontualmente o som
Que me ensurdece por dentro
Quando me adentro
À procura de mim e não me encontro
Lá no fundo, só um monstro
Me grita e me devora
Reconhecer enfim a hora
De cortar o alimento
Amordaçar o lamento
Matar o glutão à fome
A besta que de mim tudo come
Até as tripas...

Calar,
Dizer não ao falar por falar
Ao palreado fútil cortar o ar
Com os olhos, rir
Sem mastigar, engolir
O mundo pelos sentidos
Verter meus cantos feridos
Em cada pingo de poesia
Seguir com o dedo a palavra escorregadia
Metade mel, metade fel
Que se me vai, que se me cai
Dos poros da alma para o papel!

(Carmen)

Não sei se fui eu que virei as costas à poesia; ou se foi a poesia que me virou as costas. O que eu sei é que, às vezes, a alma precisa de algo mas não sabe bem do quê! Há, na vida, momentos assim; em que a palavra perde a sua essência mal sai da boca e só nos resta calar e escutar o que o silêncio tem para nos dizer! Neste viver sem som, descobri que saber calar não é castigo mas sim um dom! Aprendi que, por vezes, a sabedoria não está nas palavras mas nos espaços mudos que as separam!

sábado, 30 de abril de 2011

Vejo o cravo perder o jeito

























Ainda não o sei
Mas sem ti, vou morta
Para onde, nem sei
Quando tu te foste
E eu fiquei ; E eu fiquei… 


Olho, por dentro, o peito
E pouco a pouco, pouco a pouco
Vejo o cravo perder o jeito
De amar a chuva e o sol já rouco
Calar seus raios

Caio na escuridão
Que me ensina a engolir
Os caroços de negridão
Como pedaços de pão
Que me dão vida
À força!

Mas este pão não me sacia
Ando, de entranhas, vazia
E a luz já ténue e esguia
A minha alma desfia
Fio a fio, fio a fio

E até a minha boca
Se traja de silêncio
De tanto cuspir
Os gritos que gritei
Quando tu te foste

E eu fiquei ; E eu fiquei.

(Carmen Cupido)

domingo, 17 de abril de 2011

Perguntas





















Quem se levanta
E não mais se arrasta
E grita a palavra
Basta?

Quem clava
O derradeiro prego
Pancada
No ego
Pedrada
Nos podres
Da mente
Dos Ogres
Com língua
De serpente
Que ferram, fundo
O dente
Na garganta do Mundo?

Ai Deus, quem trava
O canino que se afunda
E o sangue que jorra, abunda?

Quem se levanta
E não mais se arrasta
E grita a palavra
Basta?

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poeta Louco

























(Desconheço o autor da imagem e apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Olhem o Poeta Louco

Ai credo, esqueceu seu credo

Para ir atrás da fama que é chama de pouca dura

Virou banazola, o rapazola

Bicho arrastado, de poesia rouco...

Perdeu-se nos cem passos

Girou febril, o imbecil

Morreu-se aos pedaços

Ai o coitado, caiu-lhe em cima um enfarte

Desmoronou-se-lhe o bê-á-bá da sua arte

Por doidejar demais sua pena

Que vazia e velha

Num canto pena e depena...

As palavras murchas já nem com cravelha

Retesam o flavo de outrora

Ora,

Seu poema, já nada grandíloquo

Virou lenga – lenga, arenga

Endecha que nem com hóstia no papo

Consegue elevar as Musas à glória

Ai que história, ai que história...

Ó Calíope, ó Melpômene, ó Erato

Inspirem, sussurrem, transpirem, que raio!

Descolem o bico ao gaio

Que assobie, declame e cante o desgraçado

Miséria já lhe basta a de ser poeta, pobre e mal fadado!


(Carmen Cupido)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Abraça-me

                 

(desconheço o autor da imagem mas apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Abraça-me,
Como nunca, como ninguém
Faz dos teus braços
Um baloiço de laços
Que me embala
Quando o medo vem

Lá fora, o mundo
Parece ter perdido o fundo
E sem chão, meus pés
Caminham a lés
Perdidos da estrada, perdidos da fada
Que me guiava...

Abre-me os teus braços
Recolhe os pedaços
Das asas que parti
A voar à toa por céus baços
Beija-me a ferida
Quero voltar a casa, ando perdida

Abraça-me,
Como se os teus braços fossem
Um boca à boca que me salvasse
Do ar impróprio, incasto
Do mundo que é vasto
Ai Deus que morro, não respiro
Na garganta, desfalece o último suspiro

Abraça-me,
Apaga, ao dia, a luz
Arranca-me a cruz
Que me pesa no peito
E faz dos teus braços o leito
Onde à noite, guerreira cansada, me deito!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Às vezes


















(desconheço o autor da imagem mas apelo a quem conheça
porque todo autor merece ver reconhecido o seu trabalho)

Às vezes,

Sinto-me lixo varrido

Para debaixo do tapete

Do amor e da vida...

E dessa inconfortável posição

Mão no peito, dedo na ferida

O meu coração grita alto a aflição

De sentir pulular nas veias

As abrasivas areias

Que me riscam e que me rasgam...

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

És grito


És, em mim, o grito
amordaçado, circunscrito
No cárcere das minhas tripas
E tão afiado é o sílex que na ponta traz
Que rasgas, reviras, estripas
O amor mal nascido que já lá jaz...
Desgraçado, ao morrer
Nem um ai proferiu
Nada, mesmo nada se ouviu
Nem som, nem sangue a escorrer
Dos ecos dolentes; E só os dentes
Trincavam os lábios do ventre
Para reter as últimas gotículas
Não sei se românticas, talvez ridículas
De um sonho abortado!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

D. Quixote de Pacotilha





















(Don Quixote Pen and ink on watercolor paper by Cloudery)

Intima com o abismo
Um pé a escorregar
Dedos a deslizar
Nas costas do obscurantismo
Carícia derradeira que vai medir
A garganta profunda que está a engolir
O meu sonho agonizante
E até a palavra, afiada espada
Do cavaleiro andante
Do poema, perde a bravura
Face à margem escura
Da tua indiferença...
Ai Amor, contra braçadas de desamor
Sou um Dom Quixote de pacotilha
E contra moinhos, não há luta nem crença
Que me valha!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Afinal


(Foto de Graça Loureiro olhares.com)

Asfixia-se o meu suspiro
No ar teu que não respiro
E para travar a morte
Atiro à sorte
Tiro sobre tiro sobre tiro
Porém, nunca acerto
Nem de longe, nem de perto
Nem de longe, nem de perto

És ao meu dedo
Caracol sedoso sempre a escorregar
Um anel que sem garra, não se agarra
Talvez com medo, ao dedo
De quem tanto, no entanto
Te quer amar, amar tanto

Falta ao meu dia
O teu riso sonoro, a tua alegria
Sal de vida que se me vai errante
Em que cada grão de silêncio lacrimante
Que te chora ausente
Omnipresente, omnipresente

Na memória dos meus olhos
Já se arrancam os folhos
Da tua lembrança,
Desespero, desesperança
De quem perde o alento
A lutar nos remoínhos do vento

Os teus braços, que não estão
Me dão um abraço, que não dão
E por um instante, a sensação
Ilude o coração para o mais além da razão
Onde os meus sentidos vão
Beliscar a carne em vão
Para ver se estás, se existes ou não

Mas tu és sonho afinal
Medonho afinal
Irreal afinal,
És pesadelo gigante quando o dia vem
O membro fantasma que não se tem
Mas que dói, rói, mói...

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Deste lugar onde, do alto do sono, o sonho alcança a vida


























(Ausente de mim no sono, foto de Carla Salgueiro)

Clarim,
Não chames por mim
É cedo
Não toques a alvorada
Nem com um dedo

Minha alma alada
Cílios ao vento
Foge do tormento
Da madrugada

O sono é ninho, é regaço
E o sonho, papoila ondulante
Moçoila ao braço
Do seu amante

No alto do céu
Estrelas vagarosas
Que na cauda arrastam rosas
Até aos confins do meu peito

Recuso o leito
Da promessa vazia e vã
Da inóspita manhã
Que me dás

Já te disse Clarim,
Não chames por mim
Não esforces a melodia
A acordar cinzentos no ventre do dia

Deixa-me na noite, deixa-me dormir
Chama-lhe sonhar, chama-lhe fugir
Mas não me chames ao corpo,
Ao torpor, à dor
Viva da carne

Eu quero o peito repleto
Sentir-me dona de um céu sem teto
Suster o voo eterno
Afastar o inverno
Deste lugar onde, do alto do sono, o sonho alcança a vida!

(Carmen Cupido)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Palavras que mato



Mordo

Mastigo

Engulo

Que o açúcar, o sal e o sangue

Das palavras que mato cá dentro

Saciem o silêncio

Que me mata

Morde

Mastiga

Engole !


(Carmen Cupido)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Para além das horas



Porque te demoras, Amor?
Porque não vens?
Em que louvor de verso
Em que planeta reverso
Te perdes, te reténs
Qual o astro que encavalgas
Sem jamais descer
Ao chão da vida a decrescer

E o tempo a matar; E o Amor a morrer...
E o tempo a matar; E o Amor a morrer...


Demoras,
Para além das horas
Para além da dor, Amor
E já que não vens à curva do desejo
Onde eu te espero, onde eu te quero
Berrantemente beijo
A palavra em que te vivo e te invento!

(Carmen Cupido)

sábado, 4 de dezembro de 2010

À meia-luz



É em ti
Que o meu coração
Se pendura
E sem medir a acção
Pica, pica; Fura, fura
Cava, lavra, semeia
Centelhas na noite
E a primeira estrela
Logo se ateia
No alto de ti
Que para mim és céu...
Bate, bate o coração
Bate o meu, bate o teu
É uníssono o som
Das harpas que soam
No fundo das íris
E até as veias
Limpam as teias
Para que o sangue dance
À meia-luz!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Massa sem jeito



Toma o meu corpo, Amor
E desculpa a hóstia amarga
Desta massa sem jeito

Oxalá tuas mãos, Amor
Lhe dêem o jeito
Das flores que me bailam no peito

Oxalá teus olhos, Amor
Passem sem ver a carne disforme
Para somente reter a luz
Que nas formas se funde

Dou-me, num abandono nu
E o vestido é tão cru
Que não se adivinha
Que o seio pendente é afinal uma estrela cadente
Que a coxa grossa e colada é planície semeada
E a barriga redonda, ai Amor é onda
Pronta a enrolar-se...

Sabes, Amor
Que nesta hora, até o arrepio cora
Nos poros, na pele; e o corpo ora
Porque não tem onde
E a carne, onde se esconde?

Toma o meu corpo, Amor
E desculpa a hóstia amarga
Desta massa sem jeito

Dou-te tudo de mim, Amor
A pureza, o sol, o fruto, o sabor
Tudo o que tenho
E se de mim medires o tamanho
Que seja só o do coração!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ai os meus olhos a salivar



Vou
Escutar por dentro
A palavra Amor
A desabrochar...

Estender os ramos
Como quem estica os braços
Para nos abraçar...

E eu, aqui sentada
Nos teus lábios, ferrada
Beberei, ávida
A aurora orvalhada
Do seu eco...

Ai os meus olhos a salivar!

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Safira líquida



Silêncio...
Tudo é paz
Na crisálida do segredo
Calo, não digo nada
Ainda é cedo
Para acordar a rosa no ventre
Se falar, tenho medo
Que a palavra prematura
Cave na terra a tumba
Antes da hora...

Silêncio,
Só a safira líquida
Que me sai da alma
Rompe o vento...

Num breve bater de asas!

(Carmen Cupido)

domingo, 21 de novembro de 2010

Estrondo


(Gota sobre dedo Foto de David Dominguez www.flickriver.com)


Estrondo,
Entranhas a implodir
Cavam em mim um poço fundo

O sentir estilhaçado
Disfarça as águas vivas
Na curva do silêncio

Moribunda,
A palavra órfã
Afunda a dor vã

A lua chora
Pérolas nos meus olhos
E depois da vírgula, ora

Para que um dedo teu venha, e as recolha!

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Se o mundo fosse um campo de milho



À rajada
Raiar um trilho
Entre espigas de milho

E logo ali, no chão
Matar a fome
Trincar o pão

Come
Tremebundo
O mundo
Esfomeado de tudo

Até de inocência...
Essa incerta ciência
Que nos quer fazer acreditar

Que é Deus que nos põe o pão na mesa!


(Carmen Cupido)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Foz de mel



Estica o caule, a flor
Para alcançar mais alto, parecer maior

Estico eu o dedo
Para acordar o sangue, abafar o medo

Na hora de tocar, ao de leve
A palavra breve

Que a tua boca solta
E que eu, ávida, espero na volta

Já com os meus lábios prontos, postos
Na tua foz de mel...

(Carmen Cupido)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poesia em sangue




Decaída
Salto quebrado
Unha roída
A palavra dá brado
Brando ao poema

Vagaroso
O verso vai
Verde na veia
E na garganta
Só o silêncio se ateia

Morre a poesia
Sem encontrar cura
E nas artérias da Poetisa
Já nem a dor madura

Só a morte grita no sangue!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vives alto ó Sol


(Foto de A. Brito Olhares.com)

Vives alto ó sol, dentro de mim
E eu presa na tua altura
Por fios escorregadios ; braços de cetim
Que se me pousam à cintura

Como escalar o sol, se é tão lasso
O nó desse abraço, leve, frágil enlace
Prestes a desfazer o laço

Vives alto, tão alto ó sol, aqui dentro
Que me perco na vertigem da subida
E dessangrando, já turva, entontecida
Cravo (ai Deus que caio!) as unhas bem ao centro

Sim!Sim!
Ao centro de ti, ao núcleo ardente
De um beijo puro e quente
Da minha boca no teu peito
E sem querer solto, muito sem jeito,
Um Amo-te que se aninha em ti, seu ninho
Como um chilreio suave de passarinho…

(Carmen Cupido)

sábado, 9 de outubro de 2010

Espargata existencial

 

Pergunto: Possuo certezas; ou são as certezas que me possuem? 
Será que chegou o momento de aprender a perder pé? 
Atirar as certezas da vida para trás das costas 
Aceitar nem sempre encontrar respostas 
Deixar de viver 
Só em caminhos traçados 
Sem desgostos, sem dúvidas, sem surpresas, bem delineados
Deixar-me contagiar por um grão de loucura 
Pendurar-me de pernas para o ar 
No pedaço de céu que vou conquistar 
Quando abater os muros, e desabar 
O tecto desta casa exígua que me sou... 
Ser a outra; Ser vampiro 
E morder a exclamação, ferrar o suspiro 
Que os meus olhos vão arrancar à minha boca 
Quando me virem fazer o pino face ao meu novo infinito 
E que interessa se estou às avessas 
Se só assim o mundo reverso Do seu avesso me vê às direitas... 
Sim, sim... 
Vou quebrar os limites que viraram teias 
Fazendo a grande limpeza ao Ser por dentro 
Se quero estar pronta para a espargata existencial, 
É melhor começar já a aquecer os músculos do Eu ! 

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Nota estridente




Urge
A nota estridente
Urgente
No bico da Musa
Afia a palavra
Desusa
Que enterrei, antão
Nas entranhas do coração

Ai Amor, o canto agudo
Da esmeralda esculpida
Que se me sobe à boca!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Coisas da vida e mais além


(Vénus, Foto de Paulo Madeira olhares.com)

Por entre frinchas de terra e céu
Arrancarei à Morte seu véu
Ver-te-ei então e sorrirei
E com os meus olhos postos no teu rosto de eternidade
Todo o tempo do mundo caberá num grão de perenidade

Falaremos, muito! Ai se falaremos...
Sobre tudo e sobre nada
Sobre as coisas da vida e mais além
E as nossas mãos serão asas, palavras a sobrevoar
As velhas feridas que procuramos sarar
Remos, remos a remar
No líquido sereno que o instante contém

E assim, de corpo e alma abandonadas
Entre duas dimensões deitadas
A partida não mais dói nas nossas vozes cruzadas
Porque os anjos e as fadas
Com um sopro quente, sopram doce docemente
E a ferida já dormente
Por fim cala!

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Palavra oca


(Hole, foto de Paulo S. Olhares.com)

Palavra oca
Cuspida à toa
Da vil boca
Nunca toca
O centro
Da atenção
Nem muito menos
O fundo
Da questão
Não é pergunta
É afirmação
É rotundo
O buraco
Fura, fura
Dura
O bate-papo
De encher saco
Tanto, tanto
Que até o ouvido
Queima, arde
Com tal zumbido
É o discurso do tolo, do torto
Que tarde ou nunca se endireita
Ao espelho, é narciso que se ajeita
Sempre colado, absorto
Aos próprios lábios, porém pouco sábios…

Mas isso, ele não sabe!

(Carmen Cupido)

sábado, 21 de agosto de 2010

Flutuar



Caminhar sem caminhar
Apenas flutuar
Ver do alto a vida a desfilar
Sem levantar o olhar
Às cegas, trepar as horas
E com os pés incandescentes
Selar o peito

Viver sem viver
Sem sair do caminho
Por medo de perder
Os olhos no fundo das lágrimas
Que afogam o pergaminho

Viver a correr, viver a fingir
Antecipar a dor
Temer tudo, até o amor
Fugir, fugir, fugir
À frente do sentimento aflito
Não querer ouvir o grito
Quando a vida te arrancar de mim
Como ao pássaro, as penas!

(Carmen Cupido)

Encruzilhada


(Foto encontrada aqui: http://itinerariodaalma.zip.net/images/olhar41.jpg)

Na encruzilhada do nosso olhar
Um raio zumbe no céu
Do nosso mútuo silêncio
E antes de se saber cinzas
Ou talvez diamante esculpido
Fulminado, este cai
Enclaustro,
No nosso abraço
Mudo
E imaginário!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 20 de julho de 2010

O diabo à espreita


(A Medusa e o Diabo à espreita, foto de Torres Martins olhares.com)

Estás à minha espreita, ó cão ávido
É na esquina que me esperas, frio, impávido
Queres na minha carne fincar um dente
Salivas já o sabor do meu sangue quente?

Ai seu diabo, mil vezes maldito...
Queres ver-me cair, para depois rir
Do meu desajeito, do meu olhar aflito?

Toma todos os cuidados
Ao sair do teu buraco
Não vá eu fazer caco
Dos teus cornos delicados!

Vê lá com quem te metes, ó seu grande cão
Se eu eu fosse tu, ó seu cornudo de um raio
Não teria certeza que sou mesmo eu que caio
Fanfarrona, fanfarrona enquanto podes, ó seu fanfarrão

Quem sabe se não sou eu que te empurro
E se não vais, juro que puxo à força o burro
Um rasto de pólvora no teu cu que empesta
A queimar no inferno, olha só a festa!

(Carmen Cupido)

Poema dedicado ao meu amigo e grande poeta João de Sousa Teixeira
( João: as poetisas sensíveis também têm humor! )

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ao voltar da esquina


(Foto de ?)

Jamais vergar sob o peso das palavras
Ditas ou não ditas, deixar-se de fitas
Calou-se o canto ao amor?
E agora? Aclama-se a dor?
Parem os lamentos, por favor!

Toca a levantar, ficar de pé ainda que oca
Nestes ingratos momentos da vida
Em que só os escombros têm boca
Há que reter o sangue no seio da ferida
Com mãos, com panos, com punhos, com tudo
Acordar a alma, desarmar o escudo

Digna, nobre, erecta.
Fazer das tripas coração
Abrir os olhos, deitar fora a inútil oração
Colar os sapatos à linha recta
Que te leva, sem mesmo saber para onde
Não perguntes, o caminho nada esconde

Dentro do caminho só mais caminho
Nunca ouviste dizer que caminhar é viver
Não temas, quebra as algemas,
Empurra o ovo do conformismo do ninho
Que te prende, que te enjaula o ser

Vai, voa,
Segue a tua sina
Ao voltar da esquina
Já a voz do mundo ecoa
A chamar por ti!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Caramelo



A palavra persiste e lavra
Traça a linha, é fundo o traço
Que cava, ninguém a trava
Entre a ponta e o ponto
Lá vai ela, desaperta o laço
Antes de arrombar a porta de aço
Onde escondo a minha alma
Água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura...
Fura a eito, fura o peito
Pára, que dói!
Ai a palavra que mói
Por dentro quando não a enfrento
Cedo; Assusto o medo
E conto dedo a dedo
As vezes em que perco o ponto
Quando, tonto
Meu coração livre e destravado
Sobe, sobe, do ventre à poesia
Fala de ti, de ti fala e ninguém o cala
É uma língua que se desenrola
Que pica, atiça, belisca
Tanto, tanto, a boca tola
Que, inteiro, tu és isca
Caramelo que se me cola
Ao céu do meu poema...

Ai, Amor! Se não fosses tão doce!

(Carmen Cupido)