quinta-feira, 13 de maio de 2010

Recto


(Foto de ?)

O recto
trajecto
Entre o teu respiro
(Que me inspira;
E que eu inspiro)
E o meu verso
Rubro
Suspiro
Reverso
Que revira as linhas
Do avesso
Para te amar
No segredo
Das entrelinhas
É uma corrida
Com partida
Nas palavras
Que tu lavras
Na intemporal ferida
Que me ensina
A minha sina...

Em silêncio!

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A única luz que se tem


(Foto encontrada aqui: http://sefelia.altervista.org/_altervista_ht/piccola_luce.jpg

Não sou eu, Amor
Quem te escreve cartas de amor
É a dor; a dor, Amor
Que se desfaz
Lacrima palavra que jaz
Nas madrugadas de papel
Onde se deitam os sonhos infantados
No colo das fadas que têm asas de cristal
Ouve a dor, Amor
Vai sentada na garupa da onda
E o seu sorriso de Gioconda
Baixinho te conta
Que a maré alta
Baixa, baixa, me foge da alma
Quando o mar, Amor
Se me retira da pele
Para ir atrás de ti
E me deixa aqui
Ai, razia; Ai, vazia
E sabes, amor?
Para me consolar
De não seres meu
De eu não ser tua
O céu deu-me a lua; o céu deu-me a lua
Mas para quê, amor
Querer a lua
Quando se conta hora a hora
Chamando, rogando a aurora
E se desespera na espera
Porque o sol não vem
E a única luz que se tem
É de cera!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Diabo sem nome


(Foto de Paulo Madeira olhares.com)

Por detrás da porta fechada
Uma sombra pesava
E o terror era a poeira
Que ao soprar levantava
Uma nuvem negra que ria e troçava
E os seus pés de ferro
Faziam de mim o solo
Onde dançava

Era espectro ou fantasma;
Ou diabo sem nome
Punha na mesa a Ira
E depois ordenava: Come!

E eu apertava os dentes
E a boca encerrava
A minha fome era outra
A do pássaro que voava

Choviam mil punhos
Com lâminas de espada
A ferir a minha estrada

E os punhos eram cunhos
A empurrar-me contra o muro
E contra o muro voltados
Meus olhos revoltados,
Perdiam de vista
O futuro...

E eu retinha os sonhos
De unhas afincadas nos fios
E meus olhos eram rios
Leitos a desbordar, medonhos
Dos venenos que ele me dava

E eu vomitava; E eu vomitava...

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Avonde


(Foto de Maria Mcginley Photography)

Deixo-te crer
Que me possuis aos punhados...

Toada que entoo
Carme que de cor recito
Para enganar tolos!

Pensas que te pertenço
Mas o verso é inverso

Acerta a hora, ó crédulo
Remonta o pêndulo
Ouve alto, o que baixo penso

Avonde de vida
Bíbulo de morte
Sou Terra
E tu és quem?
Ninguém! Ninguém!

És carne da minha recolta
Que vai, mas o tempo é curto e logo volta
Nem que grites, esperneies de revolta

E com a saliva
Já a babar um Pai nosso
Te roerei osso a osso...

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Vestido de Folhos


(Vestido de folhos de Givenchy Couture)

Travar a ira
Que galga a veia

Matar a aranha
Que tece a teia

Arrancar do ventre
A flor ateia

Aprender a calma
Que sossega a alma

Desembaular a mente
Letargo – ó – dormente

Esquartejar os muros
As grades e os escuros

Vestir os olhos
Com vestidos de folhos

Arrancar as palpebras à cegueira
Antes da partida derradeira

Viver, num último intento
Asas ao vento!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Azulejo


(Letting go Foto de David Ho )


O poema é martelo
A quebrar o que sou
Em mil estilhaços
Para fazer de mim
Mero azulejo
De um cínico desejo

É-me urgente
Aprender a cair
Sobre o solo
Como se o poema
Fosse colo
Braços fortes como o aço
Berço, terço
Cama, regaço
Onde o Eu
Em pedaços partidos
Cai
Perde os sentidos!


(Carmen Cupido)

sábado, 3 de abril de 2010

Apenas

                           
                                             (La Vita, Foto de NãoSouEuéaOutra) 

Sentado no meu colo de luz 

A criança de ouro, Apenas. 

Coroa de louro, Apenas. 

O Divino, Apenas. 

O Messias, Apenas. 

O menino, Apenas. 

Mede dois palmos, Apenas. 

Tem o peso dos salmos 

Que o contam; que o contêm

Apenas. E eu sou quem? 

Sou Mãe, 

De regaço pleno Apenas. 

(Carmen Cupido)

Subir ao Céu


(Foto de Marcio Farias (?) )

Uivante, o silêncio
Que tapa os gritos
Olhos aflitos
De lobo dorido
Que me sou, ferido

Vi-me tormento
Corcel alado, na garupa o vento
Correr veloz, vai nervoso
De alento fugoso
Subir ao céu
Rendido réu
Suplícios meus
Prosternar-se aos pés de Deus
Para saber de ti...

Viro costas ao inferno
Berro alto o lamento ácido terno
É Abril, é Abril
Idosa a lágrima, purpúrea a dor, rio senil

Chorei-te ausente
E o cravo não mente
E o silêncio dormente
Acordou suado
De voz coroado
Da menina em mim
A chamar por ti
Num queixume sem fim

Faço do meu corpo cunho
Carnal ferro punho
E bato à porta do omnipotente

Toc, toc, toc!

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Erva Musa Menina



Sou um pastor que conduz seu rebanho
Bem, confesso: Conduzir, conduzir
Não conduzo, ou seja, deixo-me ir
Porque só tenho palavras negras
Disfarçadas de ovelhas
Que não respeitam regras
E que vão soltas, cada uma ao seu ar
Pastar, nos cardeais pastos da escrita...

Às vezes, eu, simples pastor a guardar seu rebanho
Esqueço quem sou, no letargo sonho de quem aguarda
Que as ovelhas que guarda,
Encham a pança com abundância
E ergo-me, gigante, a furar o horizonte
Como se no breve sono não fosse pastor de poema pequeno
Antes fosse um Baobab na savana africana
Que nem sequer tem que levantar os ramos para tocar o sol

Mas logo acordo, em sobressalto
E salto, de lá de cima, cá para baixo
Não vá eu queimar as pontas da pluma, a sério
Mesmo que o sol que me encandeia seja astro,
Não real, miragem
Na planura da pastagem

Tenho, pois, que admitir
Ser na poesia um simples pastorinho
A guardar palavras negras
Disfarçadas de ovelhas
Que não respeitam regras
Quando mastigam letras

Não tenho a altivez do condor
Não tenho a luz da lucíola
Nem a sabedoria das abelhas
Nem o cansaço das formigas
Sou apenas cigarra a cantar
Canções de embalar
À erva Musa Menina

Para que cresça...

Lenta; Lentamente!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vidente


(Cat’s eye Nebula photo from NASA)

Vidente

O meu vazio
Que se adivinha
Pleno
De ti…

Evidente

Sem ti
Meu ventre
É
Terreno
Baldio

E tu vadio

Mal
Desprendido
O fio
Corres
Solto

No espaço estelar do poema!

(Carmen Cupido)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Nas janelas do teu rosto


(Foto de Tiago Phelipe olhares.com)

Há dois buracos negros que me engolem
Por detrás das tuas pálpebras, nas janelas do teu rosto
Mas não se cansa quem te olha e corre por gosto
Mistério a dentro, até ao centro
Do “Tu” planeta...

Fecho meus olhos, equilibro meus medos
Deslizando vou, pelos teus segredos

Duas lágrimas, uma pitada de sol
E uma semente de rosa, que vai nua
É o que trago no bolso das oferendas;
Sei que sou pobre de folhos e rendas
Mas a passagem antes escura, abre-se airosa,
E o caminho continua

Não insisto, à força que me leva, não resisto

Deixo-me arrastar, e quando enfim chegar
Ao outro lado de ti; Hei-de lá plantar
Um jardim suspendido no alto do teu ventre

Com duas lágrimas, uma pitada de sol
E uma semente de rosa, que vai nua
E eu e tu, mão na mão, sentados sob a lua...

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Amen


(Rezar, Fundo de ecrã de olivierelissalt)


Despiste-te de mim, aflito
Ausente maldito
E como um velho vestido, estorvo, empecilho
Assim caí eu, farrapo, a teus pés...

Vai-te! Não te aguento!
Vai, ó espavento, com o primeiro vento
E que o diabo te carregue

Odeio a nuvem demente
Que sempre vai a contrário senso
Da minha ânsia, que te roga presente
Em cada gota de chuva que rega, que cega os meus olhos
Odeio!

Vai! E se voltares
Olha-me, olha-me bem:
Uma incubadora de larvas é o que fizeste de mim
Que me devoram em vida, nem sequer fria, ainda quente
Enfartando, alegremente
A pança ao bicho solitário...

Larvas, sim...
Nojentas, depravadas
Falsas as Musas, negras as Fadas
A ferrar o dente no que sou, no que sinto
Até que meu pranto; Num mórbido canto
Expulsa o feto poema das entranhas das palavras...

E a caminho,
Põem seus ovos, constroem seus ninhos
Nos altos ramos do céu da minha boca
Hóstias de fel que sugo à força
É a clarividência das pedras e dos espinhos
Que me deixaste no lugar da tua presença
A meter seus dedos na minha garganta

Fundo, tão fundo...
Até que num doloroso espasmo
Meu ventre, meu corpo, meu todo em marasmo
Vomita, se desfaz, se esvazia
Em rios de purpúrea poesia

E ainda devo vergar e dizer-te:
Ámen?

(Carmen Cupido)

domingo, 14 de março de 2010

E por falar em decote...
Coisa Pequena


(Desconheço o autor mas apelo a quem conheça... porque cada autor
merece ver reconhecido o mérito do seu trabalho!
Foto encontrada aqui: http://fotos.sapo.pt/EQycmOYzbmAr5bZ1av96/)

Um rato, coisa pequena
Ligeiro como uma pena
Cava a montanha
Escava com garra
É muita a desgarra
Mas a obra é tamanha
Não desiste
Ofegante, insiste...
Com unhas em guerra
Lá vai perfurando a terra
Avançando de manso
Exausto, mas sem descanso
No cândido ardor
Do labirinto que traça, ai o gigante labor
Nem olha os cristais
Passa indiferente ao minério
Para quê riquezas tais?
Se procura um bem maior, o mistério
Do ventre da Montanha!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 9 de março de 2010

Poesia decote em V


(Seio ou Vulcão Foto de Demetrio Barreto olhares.com)

Vacilam cambaleantes os pés de quem admira
E retém, na retina, a paisagem que mira...

É a vacuidade preenchida do olhar vagabundo
Que parte à ventura, procurar céus na varanda do mundo.

Vale fértil de sagrados onde vagueiam
Mãos invisíveis que tacteiam
Cavando na vaniloquência do majestoso
Uma vala de silêncio mais que verboso.

Veiga de amores onde a imaginação lavra lumes
Vela ao vento, em intimo mar, porque quer navegar
No veio, veia, filão de sensuais perfumes.

Vagidos fervem na vasilha da vida que é vergel
Para as bocas sedentas que se inebriam dele.

Viagem vértice vertigem ao absoluto feminino
Verso infinito, na pluma do poeta, hino
Poesia decote em V.

Ai Mulher! É de vulcão feito, o teu seio!

(Carmen Cupido)

domingo, 7 de março de 2010

O Sol lá fora


(No silêncio da escuridão, foto de Primo Tacca Neto)

Mea culpa
Se tranco o sol lá fora fechando a portada
Da janela da vida que passa; e minha alma encerrada
Louca late, pulsa, inflamada pupa.

Não sei porquê, mas sinto-me muda,
Que a minha boca se desnuda
Como árvore de outono em seu invernal sono
E que os sons são só folhas mortas
Húmus do silêncio a encerrar as portas
Da minha voz.

Não enxergo a luz,
Raio a raio, ela se esfuma
Neste buraco negro do que sou
Nada brilha, nada reluz
E eu aqui, coberta de um cendal de escura espuma,
Sem saber onde estou

Aquela estrela pálida que avisto
Do fundo deste castelo cavernal que habito...
Serei eu? Estarei no escuro
Sem saber que sou cadente astro
Meteoro de incandescente rastro
A atravessar o horizonte, cavaleiro ilustre, valente
Montado na sela de um caule órfão de flor
Mas com sonhos no ventre?

Quem me fez assim, feita de noite e de fel
E porquê se perdem em mim a canela e o mel?

Mil vezes desaparafuso, juro
Meu umbigo e o situo
Mais aquém, mais além
Para que a minha alma, engrandecida
Solte ao sol sua sílaba retida
Como se esta fosse rouxinol
A chilrear, o cantor
Cantando um hino de amor
À manhã macia e clara

Mas minha palavra, ora obscurecida, ora encandeada
Sente eternamente um toque gélido de serpente enrolada
A roçar-se provocantemente na pele do poema!

Porquê? Porquê?

(Carmen Cupido)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Simplicidade



Desprendem-se as palavras
Do peito da Poetisa
Com a mesma simplicidade
Com que cai a folha...

A folha...
Cor do ardor
Que estremeceu 
O coração das árvores
Quando o frio 
Da realidade se misturou
Ao calor dos sentimentos...

Soltou-se
No seu último 
Suspiro de vida
No ramo do poema...

Flutuou no espaço
Corpo de poesia
Meio acordada meio adormecida
Já com um pé no sonho que há-de vir...

E logo veio cair
Aos pés do outono
Adubando-lhe o ventre
Com húmus de primavera!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 2 de março de 2010

Cidade


(A Cidade pintura a oléo de Miza Pintor)

No asfalto da cidade,
Rosas não há.
Ali, só crescem narcisos
Que de beiça colada ao espelho,
Admiram seus umbigos rosáceos.

Liames de gente
Com olhos maiores do que a barriga
Cortam, sem dó,
O pulso ao rumor das folhagens
Que late, rouco e verde,
E numa derradeira pulsação
Canta a sua última canção
De ninar aos pássaros nos ninhos.

Erguem-se paredes de ferro e betão
No lugar do amendoal, do olival
Dos tojos, das papoilas e do cevadal
E o ventre da terra violada
Infanta agora só torres verticais
Que levam na ponta punhais
Para rasgar a garganta ao céu.

Ali, rosas não há. Ai não, não há...
E se houvesse, suicidavam-se com o desgosto!
Nos jardins, só pedaços de carne sobre patas
Se entre comem, salivam sangue, jubilam com gosto
E ocupados no jogo do Predador que come o cordeiro
Nem vêem que o dia novo
Se asfixia no ovo
Com o muco ensanguentado
Que a terra tosse!

(Carmen Cupido)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Multidão


(Multidão de Pedro Charters de Azevedo)

Paro.

Desligo o autómato que trepou
Nos últimos grãos de vontade
Que ousaram germinar entre os rasgões
Da minha alma.

Penso.

Reanimo a Anima
O ser embrionário do Eu
Que se enfezou no ir com a corrente.

Elevo-me.

Mais alto do que a massa uniforme
Abandono o trilho da Maria vai com os outros
Respondo ao apelo urgente de não ser igual
Ser diferente.

Que se incendeie esta mata disforme
Onde corpos sonâmbulos, ocos, deambulam
E renascerei, de entre as cinzas e escombros

ÚNICO!

(Carmen Cupido)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Dama dos Cravos


(Liberdade Foto de Nessuno olhares.com)

Era o teu corpo, gigante ferida
Tua, mulher, nas mãos do horror, sofrida
Que ao fender a veia, ia pintar
Cor de sangue a gritar
Os cravos do teu terraço

E ai Deus!
Como eram belos e aprumados
Mulher, os teus cravos
Generosamente regados
Pelas águas que corriam nos dois valados
Fundos, cavados
Pela dor no teu rosto

E com tal beleza
No peitoril da tua casa
Tapavas com destreza
A fealdade dos dias
Em que a vilania assassinava a tua liberdade
E tu morrias,
Pouco a pouco a pouco

Nada parou a morte
De vir desprender, de um só corte
A corda que mantinha a tua asa presa
E tu partiste, minha dama dos cravos,
Voaste com leveza...

Foste com certeza
Fazer enrubescer o mesmíssimo céu!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A luz que eu lhes dou



Cala-se-me o sorriso,
Pouco a pouco, eu sei
Nos lábios dos meus olhos
Que trinco
Para que a boca não chore
Óvulos de lágrimas
Que descem os degraus
Que separam os ovários da poetisa
Do útero que ansia o embrião poema

Vergo,
Um dos meus joelhos já toca terra
Sob o peso que cada dia mais me enterra
Braçado de corpos e vidas que carrego aos ombros

Porque me senti derrear
Com tantos pedaços de outros que trago em cima de mim
Subtraí o meu próprio peso que se fez sombra
Porque sombras não pesam e só se vêem
Quando vem o sol...

Mas já que o sol não vem
(Deserdar os outros de mim não podia!)
Pensei descoser-me do que sou, rebentar-me pelas costuras
E das tripas do amor fazer cordeis de luz

Pendurei os cordeis, juro que nem um guardei
Ao longo da estrada dos que vivem por mim
A vida que eu não vivo; mas os loucos
Nem conta deram que me abandonei lá fora
Para caminhar com eles às costas,
Mas sem ninguém dentro de mim

Cala-se-me o sorriso
Pouco a pouco, eu sei
Nos lábios dos meus olhos...
Doi-me na carne esta dor
De carregar tantas bocas penduradas
Nos mamilos do que me sou
Sugando, sôfregos, toda a luz que eu lhes dou
E eu, deslizando já, sob o véu negro das trevas...

(Carmen Cupido)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Maria é



(Foto de Maria Flores olhares.com)

Maria é Grande.
Porque guarda dentro do que é,
Todos os tamanhos do ser que já foi.
E a memória do sangue que perdeu,
Das lágrimas que lambeu,
Também!

Maria é Mulher.
Mas quando a tempestade vem,
Faz-se homem forte, de pé
E nem no núcleo do furacão estremece, perde a fé
Porque sua Mãe, mulher também, lhe ensinou
A subir à garupa do vento para lhe puxar as rédeas!

Maria é Corpo.
É carne, sangue, sombra, pecado;
É matéria, escuro, ventre, sagrado
Deusa consagrada, Virgem Mãe imaculada
E prostituta também
Quando o sexo desabafa tempos feridos
Procurando esquecimento nos prazeres consumidos!

Maria é Pilar.
Mas seus muros são feitos de braços quentes
Do seu colo que é lar
Ela é laço de mil pontas que ninguém retém
Ponte para mais além
Mar de amar o amor que sabe de cor
Como silenciar a dor!

Maria é Árvore.
E atravessa as estações
Com as bocas dos filhos aferrados aos seus seios
Que são ramos carregados de fruta do amor, elixir de Mãe
E o seu regaço, tronco de aço, que sustém
O peso do mundo!

Maria é Essência.
Imprimida na alma, traz a ciência
De respirar as coisas simples
E quando se põe a olhar para a vida
É como se fosse Deus a espreitar lá do alto!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A lua chora


(Red Moon photo by mnoo)

Falar-te do que sinto
Perdeu o sentido
O silêncio derramou o fluido
Das palavras, seiva sangue escarlate
Punho que bate
À porta do teu ouvido
Quando o meu coração, sem norte
Vai à sorte; Perdido

Tu és
Um grito que vomito
Derradeira laje
Onde jaz
Minha última lágrima
Que em vão corre, porque a correr se morre
Nas mãos da evidência que o ventre não vê

Na orla do abismo
O coração já se me some
Sentado num eco
Que leva o teu nome
Para terras de ninguém
E as flores que em mim plantaste
Levantam a meia haste
Da semente infértil

E eu, assim desflorada
Tremo de nua
Tremo, vazia e calada
E quando o último sopro de ti se me apaga
Até a lua chora e me afaga!

(Carmen Cupido)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Na Matriz da Palavra


(Foto de Guidu Jongleur d'images www.guidu.fr)

Na Matriz da Palavra
Renasci...

Antes,
Eu era apenas um alguém ninguém
Dente que ferra
Os lábios do sonho
Que nem sangrante, berra
Minha alma decaída
Vivia numa unha roída
Poeira varrida
Para debaixo dos confins estreitos
Do escuro
Onde o Eu é um feto que se enfeza
E mesmo assim reza
Face ao muro
Que o retém

Depois,
A palavra infantou
Um ninguém
No seu colo alguém
Que cavou frinchas no muro
Abateu o escuro
E da noite que o engoliu
Vislumbrou a luz
Quando esta explodiu
Plantando estrelas no céu da sua boca

Ora a boca,
Agora cheia, antes oca
Sugou quanto podia
Não fosse o néctar da melodia
Cair como o dia
Quando o sol se deita
Em cama alheia

E sabes?
O seu peito, antes mudo
É agora um púbis de veludo
A perder as águas dos segredos
Parto iminente dos ecos secretos
Da concha do Ser!

(Carmen Cupido)